DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “A TIA DE TODOS NÓS”

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Julieta era uma figura humana ímpar, filha de pai italiano e mãe da Ilha da Madeira (meus bisavós Cabrera-Bianchetti). Ela era irmã da minha avó Pepa. As duas se adoravam, mas isso não impedia que vivessem às turras, o temperamento forte do sangue italiano subia por motivos importantíssimos.
Desde que enviuvaram moravam juntas. Minha avó tivera três filhos, sendo que o meu pai era o único homem, neto mais velho do clã. Por ele, as duas mulheres trabalhavam dobrado para pagar os estudos. Além dele, a vó tinha minhas duas tias ainda menininhas, sendo a mais jovem um bebê.
Tia Julieta não tivera filhos com o maridouruguaio, que morrera tão cedo quanto o meu avô Ataliba Martins Oliveira, um infartado e o outro com pneumonia. Os dois homens nem bem passados dos quarenta anos deixaram as duas esposas viúvas, que jamais pensaram em casar de novo. Era preciso trabalhar duro para sustentar as três crianças.
Os motivos importantíssimos das farpas entre as duas já velhinhas giravam quase que unicamente sobre… comida! Cada uma tinha seu fogão, e se gabava de ser excelente cozinheira, deixando no ar que a outra não era do mesmo gabarito. Para quê?!
Quase que simultaneamente faziam o mesmo tipo de comida, e ai daquele que não provasse e elogiasse desmesuradamente o quitute de cada uma, como se fosse a mais fina iguaria.
Julinha, para os muito íntimos, se irritava com quem fazia corpo mole dentro do restaurante Esquina Bianchetti, e despejava impropérios impublicáveis vez por outra em algum funcionário menos esforçado, ou até de algum familiar que fazia corpo mole, e estes ainda eram brindados com “vou te dar uma camaçada de pau“.
Trabalhara para algumas famílias abastadas como governanta dos filhos que eram enviados para Porto Alegre para estudar. Vez por outra os ricos filhos de fazendeiros faziam pouco caso nos estudos e lá vinha uma chuva dos tradicionais impropérios, e o “vou te dar uma camaçada de pau“, logo ela, que o único mal que fazia era para asgalinhas caipiras na hora dapreparação de uma das suas especialidades: galinha ao molho pardo. Se o distinto estudante progredia nos estudos ela arrematava: “desse jeito vais te tornar um médico bicharedo“, em tom de elogio.
Algumas vezes era contratada como empregada de alguma grande estância, para trabalhar na casa da família, como deixava bem explicado, isso a isentava de cozinhar para a peãozada. Contava para nós, seus sobrinhos netos, que ao deixar uma estância o fazendeiro quis que ela aceitasse o valor de todos os terneiros guaxos que alimentara com mamadeira, mas orgulhosa dissera que não lhe pertenciam, e veio finalmente trabalhar junto dos irmãos em mais um empreendimento do ramo da alimentação.
Era famosa pelo que fazia de melhor: a comida doRestaurante Bianchettie os doces da confeitaria. Aos domingos me lembro das filas que se formavam no invernoatrás do mocotó, que ela, já passada dos oitenta anos, ainda de madrugada, era a primeira a preparar. Tinha fãs, um famoso radialista da cidade lhe dedicava canções de Ângela Maria, sua cantora preferida. Mas o divertido mesmo era chegar de mansinho enquanto ela cortava com maestria os temperos, e ouvi-la cantarolar baixinho initerruptamente uma cancioneta popular de sua infância:
“ Bolimbolacho, bola em cima, bola embaixo.
Quem não come na castanha, não recebe do caju.
Nêga bola, cabeça de escapola, que diz que dá que dá,
Você que diz dá na bola e na bola você não dá,
E as bolas se trocaram e não puderam funcionar.
Bolimbolacho, bola em cima, bola embaixo…”
Se havia uma profissão que ela admirasse era medicina, o ser médico era para ela como um passe livre para que o profissional em questão tivesse sua atenção incondicional. E claro ela tinha eleito o seu clínico particular detentor do passe vip!
O Dr. Leonel Dóglia era cliente de carteirinha no RestauranteBianchetti, como grande figura humana de Bagé, e rematado glutão, sabia que dentro das paredes mais recônditas no enorme prédio reinava entre as panelas a “ tia de todos “.
E caso ela telefonasse, já quase cega sabia de cor alguns números contando as teclas do aparelho, mandava lhe dizer: “ tenho nhoques, e estou com gastrite “. Com um bom humor espetacular O Dr. Leonel chegava no restaurante e ia entrando sem impedimentos, no fundo do pátio havia uma ligação com outra casa onde meus tios moravam.
Primeiro ela o servia e ele comia, nossa como ele comia ! Para depois ser examinada, pressão sempre controlada, receitava algum remédio e ele voltava ao restaurante para degustar mais alguma iguaria, e tomar um bom vinho, tia Julieta era avessa a bebidas e só servia refrigerante para ele. Antes de se despedirem ela ainda perguntava se ele estava bem servido: “ espetacular D. Julieta, espetacular “.
Almoço de domingo na casa dela era uma experiência gastronômica e tanto! Sua comida era maravilhosa, cozinhava bem mesmo. Já próxima dos oitenta e sete anos, cegueta, nada a impedia de ser uma mestra na cozinha. Ela ficava em pé atrás da família reunida na mesa compridamunida das colheres de servir. Era só limparmos o prato e bloft, sem nem pedir éramos servidos de mais uma gigantesca porção do seuspaghetti ao sugo, e se por acaso algum dos sobrinhos reclamasse que não queria mais, vinha rápida a resposta: – “Vou te dar uma tunda de laço guri sem-vergonha“, e armava o braço como se fosse dar um safanão, que em segundos se transformava num abraço e a pergunta, “quer mais do meu spaghetti“?

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DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “A redenção numa colação”

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

As chamadas formaturas, ou colação de grau se tornaram um grande comércio. Tempos atrás li que são gerados milhões de reais pelas empresas que oferecem serviços para montagem da cerimônia e a posterior festa, e tais firmas ganham verdadeiras fortunas.
Eu lembro que, na primeira semana ao entrar na faculdade de medicina da PUC, todos na turma foram informados da necessidade de fazer eventos para angarias fundos para as fotos, aluguel das becas ( roupas pretas que temos que vergar na cerimônia), a decoração do salão da colação de grau, e da festa propriamente dita.
A cerimônia em si é um grande momento para os jovens que estudaram, se destacaram e foram em frente na vida acadêmica. Mas penso que a principal estrela sempre será a família. E hoje em dia o conceito de família está bem elástico, mas sob qualquer forma que se apresente, continua a ser a reunião daquelas pessoas que dão o esteio ao jovem, e que acreditaram na máxima: “só o estudo te salvará“.
Vi em formaturas pais abonados que transbordando de orgulho abraçam seus filhos e lhes oferecem tudo o que o dinheiro pode comprar, estão certos, são jovens que deixaram as diversões que seu poder aquisitivo poderia lhes proporcionar para cair matando em cima dos livros e apostilas, então nada mais justo que sejam recompensados.
Mas também vi, nas universidades federais é mais comum, famílias inteiras que se mobilizam para que muitas vezes aquele jovem seja o primeiro entre eles a receber o “canudo“, cenas lindas se desenrolam então.
Vi mães que sozinhas batalharam para o seu rebento entrar num curso superior e, como é de praxe, na hora da entrega do diploma elas são as escolhidas para entregar “o tal do canudo“. Em algumas destas cerimônias, ao subir ao palco para abraçar os filhos, as mães coragem ficam tão impactadas que, ao observarem embevecidas, dão um passo atrás para poderem captar melhor na retina a cena tão sonhada, e assim registrar para a eternidade o momento único.
Dia destes fui numa colação de grau, e um rebento, galalau de quase dois metros, barbudo, pisando firme o estrado do palco chamou não só a mãe para a entrega, mas a avó e duas tias. Estas subiram os degraus que as levava ao palco aos pulos, e ao receber o diploma das mãos da matriarca o homenzarrão chorava feito criança. Ainda no palco se via o olhar de triunfo da mãe, ela tinha vencido, nem que para isso tivesse que ter pedido ajuda da mãe e das irmãs. Todas deram seu quinhão para formar o meninão da casa.
Vi pessoas simples pisando meio sem graça nos centros de eventos, como se aquele lugar não fosse o seu, mas ao ver o seu filho ser chamado isto lhes dava uma felicidade nunca antes alcançada e a chance muitas vezes de se começar uma mudança para melhor.
Hoje são dias mais descontraídos, já ri às pamparras em algumas ocasiões, em que se tenta dar um ar solene. Aí vem os pândegos! Um rapaz se chamava Gino, e todos lembram dos palitos Gina, com uma moça loira na caixinha? Pois não é que seus amigos prepararam uma peça para o pobre rapaz?! Pegaram caixas grandes de papelão e colocaram fotos do Gino, com dizeres: “Palitos Gino “. Fizeram buracos para os olhos e tal qual burcas de papelão com os dizeres na frente, adentraram em fila na sacrossanta cerimônia. O teatro onde estava transcorrendo a cerimônia veio abaixo.
Mas mais do que tudo, recordo o meu pai, que teve que enfrentar uma mensalidade de uma universidade paga e praticamente se eviscerava a cada semestre para manter este que aqui escreve agora. Não foi fácil, mas no terceiro ano consegui uma bolsa de crédito e fui adiante.
Acima de tudo para aquele jovem que planeja fazer um curso de graduação, estude, estude sempre, passe muito tempo debruçado em cima dos livros, comece cedo, e veja suas aptidões. Poucas coisas no início da sua vida adulta lhes dará tanta satisfação quanto o olhar de admiração de seu pai, sua mãe, sua família inteira em muitos casos. Tenha isso em mente e guarde no canto esquerdo do seu peito a imagem registrada do seu pai com os olhos marejados de orgulho e satisfação, como estavam os do meu pai há vinte sete anos atrás.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “O ALEMÃO TRISTE”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Sempre soube que o povo alemão era trabalhador, ordeiro e profundamente apegado às suas tradições. Em um mau momento da história eles caíram literalmente no conto do vigário, saíram atrás de uma ideologia espúria, acreditando num líder salvador, messiânico, e sem se darem conta, que era a criatura mais abjeta que já tivemos em 2000 anos de história, desde o início da era cristã. O mal em estado bruto habitou a terra.Para Hitler não bastava pregar a supremacia da raça ariana; loiros, olhos azuis, e sem uma gota de sangue judeu, eram os únicos a entrar no seu círculo íntimo. Artista frustrado e pintor medíocre, viu na rica burguesia judia uma forma de arrebatar dinheiro para distribuir ao povo alemão, e financiar uma guerra, estúpida como todas as guerras. De quebra exterminou milhares de pessoas que ele simplesmente achava que não mereciam existir.Não esperava encontrar pela frente um político inglês, beberrão, mas com uma visão de mundo extraordinária, Churchill, o grande herói da II Guerra, líder da então forte nação inglesa. Com a queda da França, Winston Churchill sustentou a guerra sozinho de 1939 a 1941. Somente após Pearl Harbour os Estados Unidos finalmente entraram de sola na Europa, e viraram o jogo.Ao chegar em Pelotas, para fazer a residência médica em nefrologia,  convivi com os pacientes que faziam diálise peritoneal, e existia uma parcela deles provenientes da cidade de São Lourenço do Sul. Esta cidade foi fundada por uma das inúmeras levas de alemães fugidos das guerras. Eles eram diferentes, simples, educados, mas sérios. Como filho de descendente dos bem mais expansivos italianos eu ficava observando e comentei com um orientador, que respondeu “ sim, eles são assim mesmo”.Das famílias de imigrantes que povoaram São Lourenço houveram inúmeros casamentos na pequena comunidade, com laços consanguíneos aliado à uma patologia que estava adormecida nos genes daquela gente floresceu algo insuspeitado pelos habitantes, era a chamada Doença Renal Policística. Os rins, nesta patologia, se transformam com o surgimento de múltiplos cistos, e ficam como um queijo suíço, que faz com que no decorrer do tempo a função de filtração dos rins diminua, e em alguns casos o paciente perca totalmente a capacidade de filtrar o sangue, entrando em diálise. Esta doença não tem nada a haver com o surgimento de cistos simples nos rins, totalmente benignos.Aquela cidadetem um índice elevadíssimo de pacientes renais crônicos, comunidade pequena mas já necessitando que se criasse um centro dialítico para que se tratassem estas pessoas, sem precisar ir até Pelotas, que é a cidade grande mais próxima. Mas alguns pacientes de diálise peritoneal não quiseram ir ao novo centro de tratamento, preferiram permanecer vinculados ao nosso serviço de residência médica, baseado na Beneficência Portuguesa de Pelotas. Atribuo ao fato que esses pacientes,que necessitam de tratamento especializado, tem mais independência em relação ao outro método, a mais popular hemodiálise. Então ir ao médico era uma oportunidade de irem passear por Pelotas.Havia uma senhora alemã que a diálise peritoneal funcionava muito bem, morava sozinha, seu asseio era a chave do seu sucesso, silenciosa, séria, apesar de visivelmente gostar de mim, não era de grandes manifestações, e ao dar a mão para se despedir da consulta periódica meio que esboçava um sorriso, e era só o que se permitia.Acabando a residência, passei 3 anos morando em Brusque, cidade de Santa Catarina, ao lado de Blumenau, e sonho de todo gaúcho no verão, 30 km até a praia mais próxima com uma estrada fantástica. Pois a região é bem aqui do lado, mas me pareceu outro país, fiz amizades ótimas. Mas  confesso que para um filho de dono de restaurante foi um baque, tirando o marreco assado, prato típico, servido com raiz forte, e geléia de ameixas, o resto da comida não é para nós.Não dá nem para falar no gosto do “ churasco “, que eles fazem questão de pronunciar churrasco com um r somente.A cidade é linda, divida ao meio pelo Rio Itajaí-Mirim. Do rio para o centro se localiza a comunidade alemã de fé protestante, sua igreja, seu hospital, suas escolas; da metade do rio para fora da cidade, a comunidade católica, mais pobre, constituída de operários, religiosíssima, comseu colégio, em anexo o santuário, onde em frente está o seu hospital. Pois neste hospital trabalhando na diálise, fui chamado para atender o pai de um operário graduado, de uma das inúmeras indústrias da região. Era um alemão próximo dos setenta anos, morava na Alemanha e viera visitar o filho que fazia seu trabalho há alguns anos em Brusque. Pois não é que o alemão ao se deparar com a fantástica região cercada por morros com florestas, temperatura agradável, e cercado pelos netos se deprimiu ! Não bastava estar lá, ele teria que voltar à fria Alemanha, não queria vir morar no Brasil, ele não falava nada de português, e tinha um padrão de vida alto em seu país. Na época eu estava fazendo acho que o meu último cursinho de inglês, e nos comunicávamos meio canhestramente, mas bem. Ele estava triste por estar com uma sensação de que a felicidade ia acabar logo, vá entender…Aqui perto temos Santa Cruz, o índice de depressão na região é alarmante, o risco de suicídio é alto e há estudos para entender o porquê disso, há literatura que ligam os casos ao agrotóxico dos fumicultores. Uma das maiores mentes do século XIX/XX foi um pensador austríaco,  médico de formação, que com a força do seu intelecto solar soube criar uma das mais instigantes teorias da humanidade, Sigmund Freud; talvez ele entendesse essa melancolia dos seus pares, para nós latinos rima com algo abstrato. Devemos muito às teorias de Freud, ele desvendou os meandros da mente humana de uma forma única com a psicanálise. Pena que com tudo que já foi teorizado não é o suficiente para curar esse mundo cada vez mais doente. Sim, doente do afeto entre as pessoas, de ser educado com os professores desde cedo, de saber educar o filho para que ele saiba cuidar dos pais mais tarde. E acima de tudo que saiba sorrir e seguir em frente diante das vicissitudes da vida.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “O APEGO”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Nos mitos antigos entendemos como se formou a alma humana. Os gregos acreditavam que Zeus, seu maior deus, quase fora devorado pelo próprio pai. Sua mãe, para evitar isso, o escondeu numa caverna longe da vista de todos. Abandonado, o jovem deus cresceu sem mãe.
Graças ao mito, o sagrado perdeu seus terrores e toda uma região da alma abriu-se à reflexão. “ A poesia pode tornar-se sabedoria”, nos ensina Pierre Grimal.
Dia destes soube de um relato pungente. Uma jovem médica fazendo sua residência em pediatria se deparou com uma criancinha com a rara Síndrome de Klippel – Trenaunay. Nome imponente para uma sina difícil de ser suportada. Um conjunto de hemangiomas gigantes, dilatação venosa, com hipertrofia óssea e de tecidos moles. A doença dá um aspecto que faz com que a maioria das pessoas segure a respiração para assimilar as visíveis manifestações do acometido.
No grande hospital escola onde a residente estudava com afinco e dedicação singulares, devido à sua natureza de forte idealismo, ela começou a se apegar cada vez mais àquela pequena danadinha.
Os hemangiomas na traquéia eram tantos que houve a necessidade de que se fizesse uma traqueostomia (orifício na traquéia onde é introduzida uma cânula de plástico ou metal) para facilitar a respiração. Os hemangiomas se espalhavam em toda a sua hemiface.
A residente começou a tomar atitudes de mãe, já que a mãe da menina a abandonara e o pai nunca dera as caras, um desconhecido. O que num dia era um carinho, como trazer sopinha de casa para a bebezona, tornou-se uma obrigação.
O namorado da residente, que também é médico, começou a lhe indagar? -“Não estás ultrapassando os limites da relação de médico e paciente, por mais indefesa que a coitadinha seja? ”
Mas não, determinada, ela não queria saber dessas firulas, e se entregava com paixão.
Na UTI a menina completou um aninho e fizeram uma festa, com direito a buquê de rosas para a “mãe substituta” . Nestas alturas todos já pensavam que a residente a adotaria, junto com o namorado.
Mas nós médicos somos muitas vezes reféns de nós mesmos, por cobranças de ascenção profissional, com especializações planejadas e difíceis, vida corrida, ainda mais numa grande cidade, e a adoção não se concretizou.
A burocracia dura e fria determinou que a criança fosse para uma instituição nos moldes da Febem, avalizada pela Assistente Social do hospital.
Com dois anos e pouco a pequena retornava ao hospital várias vezes, correndo e brincando como só uma criança sabe fazer, ignorando seus problemas. Ela queria era, junto das outras crianças da ala pediátrica, brincar de esconde-esconde pelos corredores.
Ao saber, a residente rápido foi no quarto vê-la. A pequena crescera e já não reconhecia sua “mãe substituta“. Arrasada, culpada por se sentir incapaz para a tarefa de ser mãe daquele serzinho, chorou as mágoas quieta.
Mais algum tempo a menina retorna ao hospital agora com miíase (larvas de mosca) na traqueostomia. Lugar bom este que colocam as crianças deste nosso país!
Na emergência, o plantonista, cheio de boas intenções e apavorado com aquela cena dantesca de bichos que se revolviam na traqueostomia, resolve fazer imediatamente a limpeza e troca da cânula. Ao tirá-la quem diz que dá para recolocar ? Edema súbito da mucosa, correria da equipe, tentativa de entubação, nada deu certo e a criança teve parada respiratória. Massagens foram iniciadas, tentativas vãs, o destino já fora selado. Ela era uma não amável, não adotável, e seus anjos da guarda vieram conduzi-la a um lugar decente, limpo, onde sua integridade fosse respeitada, o jardim da infância da eternidade.
A residente acusou o golpe, magoada e triste consigo mesma, viajou, estudou fora, nada passava, trocou até de especialidade. A ferida feita não cicatrizava. Até um dia, em que por certo algo maior do que qualquer um de nós, a fez ver que não era sua culpa. Engravidou, não de uma criança, nem duas, a mesma força que apaziguava seu coração lhe deu três rebentos, todos de uma vez.
Tocada pelo destino que explodia suas defesas e dinamitava suas muralhas, ela desabrochou em uma mãe maravilhosa, acalentando suas crias num abraço aconchegante. Aprendeu assim não a se dividir, mas se multiplicar.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “A COMILANÇA PARA O GENERAL”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Quando tinha oito anos, fui levado pela minha avó Orphelina para a Avenida Sete de Setembro, em Bagé . Ela adorava um desfile, qualquer que fosse. Lembro exatamente o lugar que fiquei, perto do Clube Caixeiral, de repente começou o que era praticamente uma parada militar, solene. Paralisado, com minha visão de criança, observei que algo importante acontecia, as pessoas estavam em frenesi pela possibilidade de saudar o General Presidente Emílio Garrastazu Médici, natural da cidade. O ano era 1974.
Já se passaram 42 anos, mas essa não é a memória mais vívida que a minha família, os Bianchetti, cultivou do que é hoje considerado o mais duro dos Generais Presidentes.
Tio Pedrinho era uma figura e tanto, irmão da minha outra avó, a vó Pepa, foi sempre considerado o pai que meu pai, Sirio Bianchetti de Oliveira, tinha perdido aos onze anos. Mais tarde, já sócios, ele eram os proprietários do popularíssimo Restaurante Esquina Bianchetti – Casa de Massas. No estabelecimento, como era chamado por nós, funcionava também desde as primeiras horas da madrugada, a padaria, lancheria e confeitaria.
Os Bianchetti, para quem não priva da intimidade da família, tem um hábito compartilhado e arraigado, nunca deixar nenhum visitante com fome. Mesmo que o visitante não esteja com a menor vontade de comer.
Tio Pedro, homem enorme de mais de 130 Kg, reinava no salão da Esquina Bianchetti com seu grupo de velhos amigos, uma confraria de octagenários. Homem de apetite voraz, consumia quantidades inacreditáveis dos pratos de comida feitos pela irmã, tia Julieta, e adorava dividir estes acepipes com os amigos. Havia um, de quem ele pouco falava, haviam compartilhado lado a lado os anos na escola básica no início do século XX, sob o olhar da severa professora Melanie Granier.
Tio Pedro casara com a tia Glorinha, e tiveram um único filho, um tarimbadíssimo artista plástico. Não é preciso dizer que este filho levou uma visão fronteiriça para a arte, e ganhou o mundo. Só que poucos sabem que o filho, Glênio, exerceu também profunda atividade intelectual. A convite do genial Darcy Ribeiro ajudou a fundar a Universidade de Brasília ( UnB ). Aí veio 1964 e fecharam a Universidade, os maiores expoentes foram presos.
Na época o tio Pedrinho foi avisado que o filho estava sendo detido, me contaram anos depois que ele pegou o telefone, e entre ansioso e com um Parkinson já ativo, discou um número que ninguém sabia que possuía: – “ Prenderam meu filho ”.
Antes da inauguração de um empreendimento anterior à Esquina Bianchetti, o Restaurante Santa Cruz ( na Avenida General Osório, próximo à Igreja N.S. Conceição ), Glênio veio visitar o pai dele. Tio Pedro pediu para que ele fizesse uns painéis com temas gauchescos para decorar o local. Parte do trabalho foi iniciado ali mesmo no restaurante, o restante, pelo que sei, na estância da Sra. Pepita Collares, nas Palmas. Assim foram tomado forma rapidamente os quadros, que foram concluídos no período da visita.
Quando a Esquina Bianchetti fechou, em outubro de 1988, meu pai me incumbiu de dar destino a muitos objetos, incluindo os painéis, os menores ele presenteou a alguns amigos, o maior era meu. Levamos para o Cunhatay, onde eles foram morar. Pouco tempo depois eu levei comigo para Brusque-SC, onde ficava no meu consultório. E quando retornei ao sul, para morar em São Gabriel, veio junto na bagagem.
Nos seus últimos meses de vida, foi minha tarefa tentar tirar o meu pai da situação que o Parkinson, doença que ele teve o azar de compartilhar com o tio, lhe colocara. Tinha ficando introspectivo, logo ele sempre muito falante, agora ficava quieto pelas limitações físicas, e a dificuldade de coordenar seu pensamento com a fala.
Na sua casa em São Gabriel, todos os dias ele pensava na Bagé que deixara para trás. Por uma feliz ideia doamos, em seu nome, ao Museu Dom Diogo em Bagé, o quadro que representa um peão ao pilão, pintado pelo primo. Ao ter a notícia divulgada nos jornais da sua saudosa cidade natal, meu pai ficou muito feliz.
Voltando à Bagé de 1974, haviam tardes em que eu passava no Bianchetti vendo o movimento intenso do pátio, a chegada do leite, que vinha na carroça do leiteiro ( o “ seu “ Pedroso ), o caminhão das verduras, e as minhas tias atarefadas correndo de um lado a outro para suprir alguma falta de funcionário.
O pai e o tio Pedrinho receberam um convite inesperado, era um almoço que o então já ex-presidente ofereceria na sua estância. Foi um auê em toda casa. Como os Bianchetti chegariam de mãos abanando na sede rural de uma figura que então gozava de grande prestígio?
As cozinheiras foram convocadas, meu pai encomendou leitões, linguiças foram feitas especialmente para a ocasião pela maior quituteira de todas, tia Julieta. A já velha caminhonete Chevrolet do pai foi lavada, e numa manhã de chuva saíram, ele e o tio, rumo ao churrasco, levando a comilança.
Lembro do meu pai contar que até helicóptero aterrissou, trazendo personalidades de Brasília, e da convivência do general, que se retirava da vida pública. E eles dois chegando com os “presentes do Pedrinho”, o dono da casa adorou.
Corria solto o churrasco, e na mesa que meu pai e o tio Pedro sentaram, de repente, eis que o dono da festa senta entre os dois. E o tempo foi passando e começaram a vir os bajuladores de sempre. Um deles veio no ouvido do meu pai, que não levassem a mal, mas que deixassem que alguns dignatários de Brasília, tivessem a companhia do ex presidente.
Eles não puderam se mover, o general pegou o pulso do Pedrinho e segredou, “nunca me pediste nada, eu então te peço, fica”. E ficaram, e conversaram animadamente como na época da Prof. Melanie Granier.
Não sei se foi nessa ocasião, mas tio Pedrinho ganhou um retrato autografado do amigo, e tratou de colocar numa moldura grande, que foi para o ponto mais nobre do salão do restaurante.
Tio Pedro veio a falecer com muitos anos de vida, por uma hérnia abdominal estrangulada, após uma das incontáveis macarronadas de família. Suas irmãs tentaram ludibriar os porteiros da Santa Casa de Bagé para passar todo tipo de comida imaginável, e lamentavam o fato de não conseguirem. O paciente, mesmo com graves problemas de saúde, exigia que lhe trouxessem comida de casa. Após o luto da família eu ficava olhando aquela foto do ex presidente, não dava para ficar sem pensar nos rumos que o país tomava, era 1984, ano das Diretas Já.
Tirei a foto, e coloquei uma do tio. Paulo Brossard de Souza Pinto, bajeense ilustre, e que fora um dos líderes da redemocratização, ao entrar no salão que frequentava por ser muito amigo do meu pai desde a época do Colégio Auxiliadora, discreto como sempre, olhou para o lugar da foto trocada. Viram que ele balançou a cabeça silenciosamente, como se dissesse “enfim”.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: O GAÚCHO DE ALEGRETE.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Recém chegado em Porto Alegre fui atrás da parentada para que me ajudassem com todos os perrengues que um jovem estudante passa num grande centro, e o pior deles me parecia ser, ter avalista para alugar um apartamento. Mas o meu tio Ary era o cara !
Era um velhote fino, parecia um cavalheiro inglês tal era a elegância com que se vestia, com poucas posses mas cheio de estilo. Loja só a “ Homem Moda Atual “, onde se vestiam os senhores acima dos sessenta. Cabelo branco penteado para trás e o bigode também muito bem cuidado, com um leve retorcido nas pontas. Até garoto propaganda do GBOEX ele fora. Aparecer na televisão, isso lá pelos anos 70 era um acontecimento. Então era mais ou menos assim, uma sala de reuniões, o meu tio sentava à cabeceira, levantava com veemência e dizia: “ Conseguimos ! Atualizar e manter ! “ A família ficava embevecida com seu astro televisivo.
Caso o cutucassem com vara curta, virava uma fera, baixava o gaúcho que sempre prezava ser e podiam sair da frente, que não temia nada.
Minha tia era uma graça de pessoa, delicada, frágil. Muitas vezes quase infartava com as peripécias do marido. Certa vez foram à rua Lima e Silva visitarem uma irmã dela. Domingo, logo após o almoço, ele empertigado sentiu uma mão no bolso da calça. Pensando ser um amigo lhe fazendo troça, levou a mãozarrona e deu de cara com um assaltante. Com um braço preso o pilantra da capital começou a sentir que não devia ter se metido com aquele casal que parecia ser uma presa fácil. Com o ladrão ainda agarrado o tio sacou uma faca de prata de dentro do seu casaco de tweed, e ia sangrá-lo se o infeliz não escapasse a trote. Vociferando o meu tio gritava a pleno: – “Vem cá, vem que vou te dar o dinheiro que está aqui na minha mão, vem…” Minha tia chegou no destino pedindo dois sustrates e um copo d’água, e que voltaria de táxi para casa.
Doutra feita precisei novamente de avalista. Necessitava de roupas novas para o inverno que chegava, o Iguatemi tinha inaugurado há pouco tempo. O novo empreendimento era um local que os funcionários se achavam, olhavam o estudante com ar de superioridade. As portas do shopping ainda estavam cerradas, muitas mulheres entusiasmadas se aglomeravam para entrar assim que abrissem, e o tio começou: – “ Mas até parece um rebanho de ovelhas para entrar no brete “, falando suficientemente alto para que fosse ouvido.
Fomos logo na Casa José Silva, onde eu tinha escolhido previamente o que iria comprar, e na sobreloja para fazer o cadastro. A funcionária não teve tato algum, meio que largou a ficha para que se preenchesse, pois rápido o tio pegou, e na mesma forma que havia sido entregue foi imediatamente devolvida: – “Minha filha sou analfabeto de pai e mãe, preencha por favor “, e cruzou os braços. A funcionária emburrada não teve opção a não ser iniciar o questionário completando toda a ficha. Detalhe, de analfabeto ele não tinha nada.
Com um afeto enorme os tios me mandavam que ligasse toda a semana e me convidavam para visitá-los, e lá ia eu atravessar a Oswaldo Aranha para pegar o rumo do apartamento na Jacintho Gomes, rua pacata onde moravam. Com a entrada na faculdade as visitas foram se espaçando e depois de formado me mudei para Pelotas, para iniciar a Residência Médica.
A tia estava doente, um câncer de mama a debilitava cada vez mais, e logo ele adoeceu. Foi levado para a PUC e fiquei sabendo pelos primos que ele dizia para todos os estudantes que tinha um filho médico formado ali. Não aguentei e fui vê-lo no primeiro final de semana livre.
Era outro homem, pálido, cabelos revoltos, ficou eufórico com minha visita e começou a chamar os doutorandos e residentes que estavam de plantão. Eu conhecia a todos porque me formara um ano antes. Eles disseram: – “Que bom que vieste, ele falava sem parar que tinha um filho médico”. Tendo alta, os sintomas de decrepitude vieram a galope, foi diagnosticado com Alzheimer. Era demais ver sua esposa “Lidinha” morrer lentamente.
Dr. Alois Alzheimer em 1906 descreveu o primeiro caso da doença que leva seu nome. Segundo a literatura médica, é: “ doença que se apresenta como demência, ou perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais. Quando diagnosticada no início, é possível retardar o seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas, garantindo melhor qualidade de vida ao paciente e à família. “
Com a morte da esposa minha prima mais velha levou-o de volta ao pago, assim teria os cuidados da família na sua adorada Alegrete. A vida pode ser bem dura, mas contando com a presença firme da família isso pode ser abrandado. Vez por outra ligava para saber dele. Passava macambuzio enrolado num poncho de lã, nem de perto lembrava o cavalheiro vestido de tweed. Veio a falecer, mas deixou uma lembrança boa. Seu espírito exuberante que enfrentava ladrão de faca em punho e olhar firme, encarava o que viesse pela frente, como se dissesse novamente para as câmeras de televisão: “ Conseguimos ! Atualizar e manter ! “

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “RECORDAÇÕES DA MINHA ESQUINA”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Dia destes estava de aniversário, mais um ano, e fui surpreendido por um presente do acaso. Era a carta de um leitor inusitado, por ser de fora do nosso Rio Grande, não imaginava ser lido além da nossa região.
Neste espaço onde eu comecei como colaborador, acho importante relatar fatos, tentar esclarecer dúvidas e dar uma versão do que acontece do lado de dentro de uma instituição hospitalar, isso humaniza, quebra barreiras, faz com que as pessoas se identifiquem e torna a vida mais tranquila, dos pacientes e seus familiares, mas também do pessoal que trabalha em saúde.
Já aconteceu de um pai que perdera sua filha amada se inserir tanto dentro de uma crônica, em que toco no tema do falecimento de filho e na dor que esse evento gera numa família, que ao estar passando por este horror que o destino lhe impôs, me procurou. Ele entrou contido no meu consultório só para extravasar seu pedido de ajuda. Me segurei na cadeira atordoado tentando desobstruir os caminhos que o levavam ao mais completo desespero. O ser humano é um forte.Ao estar náufrago num oceano de lamento ele reconstruiu sua vida e aos poucos foi colando os pedaços de seu coração de pai. Me conforta que o ajudei a superar o primeiro estágio do luto, aliviando, na medida do possível, a dor lancinante que o tomava por completo.
Mas este espaço é também para o saudosismo mais desbragado. Sou filho orgulhoso de dono de restaurante. Mal comparando tem gente que para se sentir bem vai num templo, sabem qual é o melhor lugar para eu me sentir bem? Um restaurante. Há alguns detalhes: nada de lugarzinhos quietos e intimistas, tem que ter gente, conversa no ar, e comida boa, claro.
O “Esquina Bianchetti“ , em Bagé, era assim. Vejam o que me diz este leitor, na época um jovem trabalhador de um dos mais renomados bancos privados do Brasil. Ele que vinha de avião periodicamente de São Paulo até Porto Alegre, e depois de ônibus até Bagé, lá pelos anos 70. Diz ele: -“Me sinto bem ao lembrar o prazer com o qual frequentei aquele ambiente familiar e amigo, pela qualidade da comida servida e pela fartura de oportunidades de uma conversa interessante. Ali, naquela época, aprendi como era bom estar longe, para se sentir em casa. “
Mais adiante complementa:
“Me identifiquei com o texto, primeiro porque essa é uma parte valiosa da minha vida. Em segundo, porque me faz lembrar que um dos sentidos importantes da vida é poder guardar e preservar o que nos faz bem“. Brilhante na sua sensibilidade, captou o que era a atmosfera da casa, e de mais a mais, acredita no que eu acredito.
Hoje um profissional de sucesso, e com certeza super ocupado, encontrou tempo para me escrever relatando seu sentimento de nostalgia. Ganhei o dia.Posso dizer que se ainda há homens assim em postos chave, este Brasil vai adiante. Não posso prever quando isto vai acontecer, mas um dia desencanta e acontece.
E dando vazão à esta nostalgia toda, vamos reproduzir o que pode ter sido a refeição do nosso anônimo viajante paulista pela minha Bagé nos idos de 1970.
Os invernos de Bagé naquela época eram de um frio absurdo. Meus primos paulistas até hoje lembram das temporadas que passavam nas férias para visitar nossa avó e do frio constante que sentiam.
Então para estes viajantes incautos o meu pai sempre mandava que os garçons sugerissem uma taça de consumê (do francês consommé), como entrada. Vinha numa tigela específica para este fim, um ovo praticamente cru ao fundo, e caldo de frango quente, que estava sempre a borbulhar no fogão à lenha. Acompanhava um pãozinho.
Depois, na certa, era a especialidade da casa: o spaghetti do Bianchetti. Uma maravilha que até hoje minha adorável tia Ruth é mestra. Com 700 g de uma boa farinha de trigo peneirada se junta nove ovos da galinha caipira, faz-se a massa, passa no cilindro, e voilá, tem-se uma delicía. Junto ao molho de carne que também borbulhava no mesmo fogão, e mais um dos vinhos chilenos que se costumava oferecer no restaurante o viajante ia ao céu do prazer alimentar e voltava para a terra, mais sábio, mais disposto, pronto para enfrentar tudo o que a vida lhe oferecesse.
E vocês leitores anônimos ou não, dão a este cronista mais entusiasmo e satisfação ao escrever o que acalenta a alma nossa de cada dia, as lembranças, podendo ser um lugar que a saudade transformou num paraíso intocado, ou até numa superação de um pai em momento de dor.

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