DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “SOBREVIVE AQUELE QUE ESTÁ MELHOR CAPACITADO”.

DR. GERSON

IDr. Gerson Barreto de Oliveira – Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

A frase acima não é minha, nem é deste século, nem do anterior, é de um grego que viveu 600 anos antes de Cristo. Vamos lá, são 2617 anos de uma dedução própria a um sábio, um dos Sete Grandes da Grécia, Tales de Mileto. Lembrei do nome dele porque estudávamos os triângulos nas aulas de matemática, pelos idos da sétima série do I Grau. Todas as deduções que estes homens chegaram com recursos básicos são ainda hoje atuais.
Mas com a internet a gurizada anda dizendo que não. Que as aulas estão defasadas, que os professores são péssimos, que o ensino é uma droga. Alguém já se perguntou o que fazer para substituir o que está aí?
Torço muito pelos filhos dos amigos que vão adiante, se aprimoram nos estudos e conquistam seu espaço no mundo, uma forma antecipada do que me aguarda com a dupla que tenho em casa. Pois o dia de sair para estudar fora bateu na minha porta.
E qualquer pai deve pensar em que mundo os seus filhos estão encontrando, porque está brabo este mundão em mutação constante. Como melhorar?
E se cada um cobrasse os estudos dos filhos, impusesse o limite para as brincadeiras pelo celular e jogos da internet, incentivasse à leitura e ao esporte.
E fosse ao professor para dizer que ele é um herói em se dedicar ao ensino, e não para reclamar. Pegar e ir na direção da escola para tentar uma solução de subir um degrau no ensino. E caso seja uma escola privada, exigir que se o estudo é pago o professor tem que ser bem pago.
O educador deve dar sua contrapartida, com a dedicação e aprimoramento do seu conhecimento, só assim poderá repassar uma linguagem dita atual aos alunos.
Ao término do seu nono ano perguntei à minha filha se ela tinha uma professora que a marcara, que fazia com que sentisse pena de deixar o colégio onde sempre estudou. Sim ela tinha, me contou que a professora de geografia era tudo de bom, que fazia com que o colégio valesse à pena, lindo. Uma professora transmitir isso à uma aluna é sinal que há muita gente boa, e como pai só tenho que cumprimentar essa mestra, olhem bem, mestra!
Mestre é adiante do professor, poucos sobrevivem nesses mares agitados de hoje em dia, é aquele que estende a mão e convida o aluno a ir adiante, rasga a máscara de ignorância, transmite valores, e faz com que o jovem abra os braços ao conhecimento, retendo-o como ganchos.
Eu tive uma mestra também, quanta saudade. Veio à falecer com quase um século, dona de uma personalidade forte, tinha uma mente caleidoscópica para tudo, “dibina“, como falava no seu sotaque de um portunhol único.
E a nossa rede pública de ensino? Bom, está dando todos os sinais de esgotamento, é de chorar de desilusão ver o contracheque dos professores à conta gotas. Não se chega nunca à equação que professor bem pago, aluno satisfeito é pelo menos mais da metade da solução dos nossos problemas como nação, caso isso não mude nada nos restará.
Muito tem se falado das inúmeras incoerências da saúde no Brasil e do ensino médico, não dá para fechar os olhos. Mas o que fazer para mudar isso, a não ser o intenso incentivo ao estudo médico e investimento na formação dessa meninada linda ,que sai de uma faculdade com um canudo na mão, cheios de sonhos.
Eles vão encontrar, como primeiro emprego, um pronto socorro abarrotado, cheios de pacientes com doença, dor e desesperança. Novos hospitais não são construídos. Pense! Você apoiou a ideia da Copa do Mundo? Olhem o que deu a construção dos estádios superfaturados. Quanto de escolas, hospitais, e bons salários foram pulverizados em obras desnecessárias.
Está na hora de exigir, de usar a nossa reponsabilidade como cidadão e fazer um futuro para os nossos filhos sejam capacitados, e se sobressaiam neste mundo caótico.
Feliz 2017, não dá para se desesperar, vamos seguir em frente.

GABRIELENSES PRESTAM HOMENAGEM A CHAPECOENSE.

A tragédia do dia 29 enlutou não só o povo de Chapecó, mas também o Brasil e o mundo do futebol. O simpático clube catarinense se preparava para o voo mais alto de sua curta história de 43 anos, disputar a final de uma competição internacional da maior importância, como a Copa Sulamericana.
O jornal “O Fato”, por determinação de sua diretora, Ana Rita Focaccia, me passou a tarefa de escrever algo sobre tão triste episódio. Ela, como desportista é herdeira do gosto pelo chamado “esporte das multidões”, visto que seu pai, Dagoberto Focaccia tem uma vida voltada para o futebol, como dirigente e radialista.
Além disso, seu companheiro de vida e de ideais, Márcio Ferreira foi um dos grandes nomes que pisaram o gramado do histórico “Estádio Sílvio de Faria Corrêa”. Por tudo isso ela não poderia, com seu jornal, ficar fora desse momento de extrema dor que vivem todos os que gostam de futebol. O Brasil todo já sabe como tudo aconteceu. TVs, rádios e jornais se encarregaram de fazer uma cobertura digna de um acontecimento que acabou com o sonho de um clube e de uma cidade. E quem sabe, de um país. O “Fato” ouviu um elenco de pessoas da terra, que prontamente concordaram em externar através de depoimentos, a tristeza e solidariedade com tão lamentável acontecimento.
Poderia ter convidado outras pessoas, a escolha foi feita aleatoriamente, à medida que lembrava nomes envolvidos com o futebol ou com meios de comunicação. E o resultado, creio, atende ao que o jornal esperava.

15310721_10211427800881333_1461786704_nLÚCIO VAZ. Jornalista e escritor, residente em Brasília e torcedor do Grêmio Portoalegrense.
O verde da “Chape”, cor da esperança, me remete para os meus últimos anos em São Gabriel, década de 70. A cidade vivia o sonho da “Associação”. Chamávamos assim a Associação São Gabriel de Futebol. A camiseta verde unificava os gabrielenses, antes divididos entre o amarelo do Cruzeiro e o vermelho do Gabrielense. O futebol tem esse poder, é capaz de envolver toda uma cidade num projeto comum, principalmente se for uma pequena comunidade do interior. O dicionário explica um pouco mais o significado da palavra “associação”: reunião de pessoas para um fim comum, comunidade, conexão.
Diretores da Chapecoense fundaram o clube para fugir da invasão de Grêmio e Internacional. Queriam ter cara própria, ter as próprias conquistas. Queriam ter um time para chamar de seu. Conseguiram.
Com organização, seriedade e muita, muita paixão, incendiaram a pacata cidade do Oeste catarinense. Primeiro, conquistaram um lugar no competitivo futebol brasileiro. Agora, preparavam-se para conquistar a América.
E se Danilo não tivesse defendido aquela bola no último minuto? Melhor não pensar. Melhor pensar no que aconteceu de bom. Aquele time guerreiro deixou frutos. O maior deles: a cidade descobriu que pode construir um time para enfrentar e derrotar os grandes. Com a ajuda de outros clubes, que já demonstram a sua solidariedade, deve permanecer entre os grandes por muito tempo.
E que a semente plantada pela “Chape” possa florescer na Fronteira Oeste do Rio Grande – mais uma coincidência – nas bandas do Vacacaí. Eles já tem um mascote, o índio Condá. O nosso pode ser o Sepé.
E descubro agora, na chegada dos corpos daquele lendário time, como os moradores de Chapecó chamam o seu clube. Não é “Chapecoense”, não é “Chape”, é “Associação”.

15300483_10211427803001386_992779909_nAUGUSTO SOLANO LOPES COSTA. Jornalista, radialista, advogado e torcedor do S.C. Internacional.
De repente do riso fez-se o pranto. Silencioso e branco como a bruma. E das bocas unidas fez-se a espuma. E das mãos espalmadas fez-se o espanto. De repente da calma fez-se o vento. Que dos olhos desfez a última chama. ((Vinicius de Moraes – Soneto da Separação)
Nem o talento e a poesia de Vinicius de Moraes são capazes de aplacar este imenso vazio que resulta desta tragédia acontecida com os jogadores, dirigentes, comissão técnica da Chapecoense e com os 21 jornalistas, que foram vítimas do resultado de uma ganância própria do ser humano. Recuso-me a falar em acidente, pois foram expostos ao risco de uma mentalidade que pensou primeiro no lucro.
O impacto imediato deste fato não nos permite a dimensão exata dele ao longo do tempo que virá. Ainda entorpecido pela notícia a gente procura explicações. É uma sensação inusitada de ausências de quem não estava no nosso convívio, mas mesmo assim são ausências sentidas. Coloca-se no lugar dos que ficaram famílias inteiras atingidas; poderia ser qualquer um de nós.
Um time pequeno com uma curta história e de notável crescimento, a “Chape” era um pouco do Brasil que queremos, superando os gigantes e com crescimento organizado, se fazendo notar num cenário complicado, com a sua simplicidade aliada a uma honestidade de propósitos. Era o positivo superando e vencendo num cipoal complicado e de negócios não muito claros.
Um clube simpático a todos e que com a simplicidade vinha se impondo. Era sua primeira final internacional, tudo novidade própria de quem desbrava uma floresta desconhecida, uma cidade inteira envolvida, um resgate do romantismo do futebol de ontem, como que dizendo: é possível! Sua trajetória nos dizia que sim.
Ainda que tenuamente vimos a “Chape” vir a São Gabriel disputar o torneio “Cidade de São Gabriel” em duas ocasiões um time com dirigentes simpáticos tipicamente de interior, com a dignidade e disposição próprias de quem vive uma outra situação no mundo fantástico da bola. Como será agora?
Costumamos olhar o mapa da América do Sul vendo o gigante Brasil de costas para a América e olhando para outros continentes. A “Chape” nos mostra que há uma identidade americana, a solidariedade e acolhida da Colômbia. A postura do adversário Atlético Nacional e sua torcida dão exemplos de humanidade, dizem que existe dignidade no Mundo dito globalizado. Isto ganha dimensões mundiais e algum acréscimo em todos no sentimento de humanidade.
Choramos todos, que as lágrimas que escorrem reguem novos sentimentos humanos. Que do pranto se faça o riso, ainda que saudoso E que o Brasil seja realmente Sul-Americano e irmanado aos demais.

15282076_10211427808681528_632782491_nBERALDO LOPES FIGUEIREDO, professor, articulista, desenhista, desportista e torcedor do Grêmio Portoalegrense.
Poxa pecou, qual pecado para merecer tamanha tragédia, no qual ceifou vidas, engoliu sonhos e jogou tudo numa força medonha, numa montanha mortal, que morte terrível, tão terrível que penetrou no coração do mundo, torceu, apertou espremeu tanto que rios de lágrimas tomaram conta de gente que se tornou mais gente, que lição foi essa, que o destino frio implacável invadiu as casas das pessoas trazendo uma dor descontrolada, amargurada.
Poxa pecou, qual foi o pecado, porque primeiro ela conquistou com sua simplicidade, competência, sua humildade, para depois se iludir num sonho tão lindo e morreu na escuridão, na chuva e foi jogada no calombo da Colômbia, no frio, no escuro, na sombria mata testemunhas de gritos, gemidos, dor, sangue, morte, morte real morte de sonhos.
Meu Deus, ainda precisamos da DOR para sabermos que somos todos iguais, ainda precisamos do insólito para despertar um amor que nos faz chorar por almas desconhecidas. Oh! Santa Catarina onde tu estavas, teus filhos se foram ou tinha que ser assim, para que o mundo ainda despertasse , para que homens e mulheres com olhos marejados, coração apertado, de repente se tornaram também SANTOS HUMANOS, ao chorar pela dor alheia.
Adeus time da Chapecoense, os espíritos daqueles corpos, pegaram outro avião, um avião diferente, que atravessa dimensões, irão jogar noutro torneio, numa primeira divisão de outro mundo, com certeza serão campeões, porque aqui eles tem uma torcida maior, ela ocupa mil estádios, são milhões que dizem: SOU CHAPECOENSE.

15300724_10211427806201466_1952735873_nMARCEL DA COHAB, advogado, carnavalesco, desportista e torcedor do Internacional.
Uma tragédia dessas repercute e até certo ponto, ela torna nosso dia nebuloso, meio pesado quando vemos na mídia. Não é pela fama das pessoas, mas por você acompanhá-las, quase que diariamente na sua distração de ver televisão. Denner, Tiego e Biteco do Grêmio. Polmann do Juventude. Kempes de vários times do interior do Rio Grande do Sul. Alan Ruschel e Josimar do Internacional. Anderson Paixão do Inter. Caio Júnior jogou na dupla e treinou o Grêmio, além de outras equipes grandes do Brasil.
Vitorino Chermont, da Globo, Sportv e agora Fox. Mário Sérgio jogou muito na dupla e treinou o Inter. Gostava de seus comentários. Há poucos dias tinha dito aqui que o preferia para treinar o Inter.
São pessoas que a gente vê no futebol, torce por eles, contra eles, etc. Ananias fez o primeiro gol da Arena Palmeiras. Cléber Santana, jogador técnico de meio campo. Bruno Rangel, goleador. Jogadores que se encaixariam bem em outras grandes equipes. Mas acima de tudo, pessoas, pais de família, maridos, filhos…
Há uma semana falei do exemplo de gestão da Chapecoense. Não torcia para eles, até pelos últimos “laçaços” que deram no meu time. Mas não torcer não é querer o mal. É até uma forma de respeito.
Ouvi o Paulo Paixão falar na Gaúcha na manhã do acidente, posteriormente ao fato. Ele já perdeu o segundo filho e o pior, aniversário do seu neto, filho do filho. Isso me choca, pois além de tudo conheci o Paulo Paixão aqui em São Gabriel. Típico carioca boa praça, sambista, bom de papo, falamos um tempão sobre carnaval e é o tipo de cara com quem se conversa dez minutos e parece que é amigo há anos.
E mesmo que não o fosse, ele perdeu o segundo filho de forma prematura no dia do aniversário do neto e foi para a rádio falar em vontade de Deus, em agradecer pelos filhos que teve, em aproveitar a vida e os bons valores.
Uma tragédia por si só já nos toca. Pode ser com desconhecidos, com quem você nunca viu. Mas neste caso, sentimos como se fosse com gente próxima da gente, pois eram atletas, profissionais, jornalistas, pessoas que acompanhamos diariamente nos jornais, televisão e internet. Muito triste tudo isso.
Mas como tudo na vida fica uma lição. Lição de sermos sempre boas pessoas, de amarmos ao próximo, de nunca deixarmos as coisas para amanhã e o que fica como legado é nossa conduta, nosso caráter, nossa história de vida.
A “Chape” vai precisar de uns três ou quatro anos, no mínimo, para se reerguer. E só a comunidade de lá poderá ser o alicerce disso. Não adianta ajuda externa apenas. Se o povo souber a força que tem e transformar todo o seu sentimento em superação, obviamente que este fato jamais será esquecido, mas poderá recolocar o clube onde ele se encontrava até então.

15319357_10211427813081638_916772310_nJOSÉ BINA, narrador de futebol e torcedor do S.C. Internacional, de Porto Alegre. Texto publicado em sua página no Facebook e devidamente autorizada sua repetição aqui.
Cerca de 30 anos atrás, período de ouro das principais rádios de nossa cidade, São Gabriel e Batoví, na área do Esporte, já trabalhando como repórter esportivo e tendo ao lado, uma grande equipe formada por excelentes narradores, onde destaco Luiz Alberto Vargas, Glauco Vezzani, Odilon Ramos e ultimamente, Jorge Baltar, fazíamos coberturas de jogos importantes como Copa do Brasil, Libertadores, Seleção Brasileira e Campeonato Gaúcho.
Numa dessas andanças pelos gramados, tive a oportunidade de entrevistar Mário Sérgio, na época jogador do Internacional, e Victorino Chermont, da Bandeirante e que hoje se encontrava na Fox.
Mário Sérgio e Victorino morreram no acidente de avião onde estava também a delegação da Chapecoense. Guardo, com muito carinho, aquele momento. Uma pena!

15281872_10211427811641602_1372959435_nJOÃO ALFREDO REVERBEL BENTO PEREIRA – Advogado, colunista do “Jornal da Cidade”, desportista e torcedor do Grêmio Portoalegrense.
O Nilo Dias, meu amigo, pediu uma manifestação sobre a tragédia que vitimou o time inteiro da Chapecoense e vários integrantes da imprensa escrita e falada de nosso país. A missão não é entusiasmante, mas vamos lá.
Desde logo, avultam dois fatos significativos que se contrapõem e, lamentavelmente, se completam. Em primeiro, a mistura de ganância, imprevidência e irresponsabilidade. Em segundo, a solidariedade das pessoas, mostrando e demonstrando que vivemos num único mundo. É prematuro afirmar qualquer coisa, a não ser conjecturar.
A autonomia de voo da aeronave era de 3.000 quilômetros, praticamente a mesma entre a decolagem e o aeroporto de destino. Onde a reserva técnica de combustível? Nessa época, na Colômbia, chove bastante e os temporais são frequentes.
A existência de emergência, num voo comercial de outra empresa, fez com que a aeronave sobrevoasse a pista e desse uma larga volta para, aí sim, poder aterrisar. A fadiga da tripulação e por aí vai. Já se disse que as tragédias aéreas nunca ocorrem por um único motivo, mas por situações adversas concorrentes e que se somam.
E aconteceu o pior. Por outro lado, é emocionante ver a solidariedade de todo o mundo, literalmente, envolvendo clubes de futebol, entidades as mais diversas, governos e população em geral. Toda essa onda de solidariedade apenas comprova que nem tudo está perdido e que ainda há salvação.
De lamentar, apenas, a morte de tanta gente para demonstrar isso. Na verdade, numa ocasião dessas, somos um só. Por isso, ainda acredito no porvir. Não tenho palavras para consolar ninguém, até porque, tudo o que se disser, não pode apagar uma dor dessa magnitude. Lamento profundamente.

15328303_10211427816201716_1334207511_nLUCIANA CARVALHO. Jornalista e professora adjunta na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) , Campus de Frederico Westphalen, onde reside atualmente.
Um dos maiores mitos acerca da profissão de jornalista diz respeito à crença de que quem trabalha com notícia deve ser um observador/narrador neutro, imparcial. Nas faculdades de Jornalismo, nos primeiros semestres, aprendemos que uma boa notícia se faz com o lide (o primeiro parágrafo que responde às perguntas “quem? o quê? onde? como? quando? e por quê?”) e a técnica da pirâmide invertida (pela qual os fatos são relatados do mais para o menos importante).
Mesmo após passarmos pelas disciplinas mais teóricas, as quais nos mostram – por meio das ciências da linguagem e da filosofia – que não existe neutralidade, continuamos acreditando que nosso papel é construir relatos isentos de qualquer paixão. Mas, não somos apenas nós, jornalistas, os culpados pela reprodução do mito da objetividade.
A sociedade, quando percebe que as notícias são parciais (apenas parte da realidade, mesmo quando construídas com profissionalismo e seriedade), nos cobra que sejamos isentos. Embora possamos diferenciar, com argumentos bem sustentados, as diferenças entre isenção, neutralidade, imparcialidade e objetividade, no fundo todas essas condições são mera utopia.
Podemos e devemos ser honestos, plurais, inclusivos e justos na produção das notícias, mas nunca alcançaremos o real em sua complexidade, pois ele só nos é alcançável por meio da linguagem, caracterizada por sua incompletude.
Um dos elementos desse mito da objetividade é o controle da emoção. Faz parte do imaginário coletivo ao redor do modelo hegemônico do jornalismo informativo a ideia que o jornalista deve controlar suas paixões, impressões, ideologias e sentimentos. É esse ideário que sustenta a maior parte das críticas ao sensacionalismo da mídia.
Ao mesmo tempo em que apontam o dedo contra os repórteres que apelam em excesso para a emoção, muitos desses críticos são os mesmos a compartilhar imagens de crianças doentes e animais mutilados em suas redes sociais na internet.
Não se trata aqui de defender a exploração da dor alheia, postura que deve sempre ser rechaçada, mas de refletir sobre o que diferencia os jornalistas dos demais quando estamos diante de uma tragédia.
O acidente com o avião que dizimou mais de 70 vidas humanas, na última semana, trouxe à tona situações muito semelhantes às vivenciadas em 2013, quando da tragédia da Boate Kiss. Jornalistas, familiares, amigos, todos ficamos mais uma vez diante da nossa pequenez humana. É a morte e sua capacidade de unir.
Nessas horas, onde fica a tal objetividade na cobertura da imprensa? Como cobrar frieza de jornalistas? Uma mãe que perdeu o filho se compadece, diante das câmeras, com a dor de um repórter que perdeu amigos na tragédia, e nos faz lembrar que jornalista também chora.
A cobertura da tragédia com o Chapecoense teve de tudo: informações mal ou bem apuradas, repórter abordando familiares com perguntas clichê, jornalista gravando funeral com celular e sem qualquer bom senso, homenagens emocionantes, imagens desnecessárias do local da queda da aeronave, site usando a tragédia para atrair cliques e perdendo likes em massa como forma de protesto.
Com meus quase 20 anos de profissão, tive a sorte de nunca realizar uma cobertura tão dolorosa como essas que meus colegas hoje realizam, mas também cometi alguns erros. É preciso, sim, criticar a mídia, para melhorá-la. Antes de tudo, no entanto, devemos ter em mente que jornalista é uma pessoa como outra qualquer. Trabalha sob pressão, sofre, chora, acerta e erra.
Diante da dor de tanta gente em momentos de catástrofes e acidentes, não tem manual de jornalismo que dê conta. Só nossa humanidade é capaz de nos levar a uma cobertura na medida certa, que informe, emocione, mas não explore a dor alheia.
15328384_10211427826561975_596693408_nHELENICE TRINDADE DE OLIVEIRA. Advogada, radialista, contista e torcedora do Internacional.
A tragédia e a injustiça do futebol nos anos 60
In memoriam de Ilo Nunes de Oliveira
Por intensa militância no futebol meu pai ocupou uma posição muito especial na pequena cidade onde vivia. Ocupava os seus dias no empenho consciente e convicto de que o esporte favorecia uma vida mais saudável com companheirismo na disputa generosa entre os jogadores.
Para os jogadores os times eram suas famílias e a integração social que ele produzia era o deslanche que muitos jovens periféricos precisavam. Pequenas mudanças ocorriam na vida daqueles atletas interioranos e o pagamento que recebiam invariavelmente vinha da prefeitura local ou dos engenhos de arroz que empregavam quase todos. Alguns mecenas futebolistas se encarregavam de premiar o jogador artilheiro.
Nunca soube explicar as razões que muitas vezes fui ao estádio de futebol nos dias que meu pai treinava seu time, sei dizer que seus ensinamentos eram baseados em histórias reais e práticas.
Os jogadores sabiam que alguma espécie de rito deveria se dar depois daqueles jogos, submetidos a ilusão juvenil que um dia seriam Garrincha ou Pelé pela capacidade técnica.
Pelo menos ali, no campo que jogavam diluíam as dificuldades de localizar seus destinos, pois a vida bruta já oferecia a grande maioria responsabilidades com a família. Laterais e meio-campistas, atacantes ou zagueiros sonhavam jogar no Santos, Internacional ou no Grêmio.
Quando despertavam a paisagem era sempre a mesma.
As ideias e os afetos se embaralhavam e muitos não souberam partir. Pelos caminhos foram se resignando na aprendizagem de que a estrada que se abria aos seus olhos era a única disponível desde o dia que nasceram e se arrastavam entre as cinzas dos sonhos não realizados.
A minha infância foi povoada por nomes que nos domingos espichados e tediosos eu ouvia na rádio ditos pelo meu pai, como comentarista esportivo ou como treinador explicando a derrota ou vitória. Ele tinha o direito a solidariedade. Fui decorando nomes e fisionomias.
O Muquica, Boneval, Castelhano, Sapinho, Canjica, etc … O Canjica foi o que mais depositei na memória, seu sorriso, sua negritude e do tamanho do seu desaparecimento como jogador, o alcoolismo que ocupou os seus dias matou a sua estrada.
A morte anunciada de um jogador de futebol pelo uso do álcool acontecia pela ausência de regras formais sobre o consumo, a evidente depressão e cansaço de uma brutal ressaca antes das partidas. Concentrar antes dos jogos nem sempre era possível, meu pai organizava o sono dos jogadores para que nenhuma amnésia alcoólica atrapalhasse a partida do dia seguinte.
Ele repetia com convicção que assim a vitória seria possível. Contudo a tragédia já se instalara desaparecendo para muitos a possibilidade entre o ruim e o perdoável.
Uma coisa era certa os jogadores adoeciam pelo uso do álcool, deprimiam pela falta de capacidade física e pela alimentação deficiente como se comprova nos dias atuais.
Recomeçavam a contagem e as contratações a cada campeonato e o silêncio se instalava sobre as perdas, resvala para os não contratados e sobre a miséria de entrar num copo e afogar tristezas. Sem tratamento adequado alguns pareciam não esperar por nada.
A dor do confronto social, da arrogância da classe dominante da época e a inexistência de amparo para aquele sofrimento compartilhado somente por algumas famílias se misturava na mais decidida ignorância.
O abismo da hora, o esgotamento do sonho da fama destruído foi o mais difícil e decisivo itinerário que alguns jogadores treinados pelo meu pai viveram. A injustiça, a dor e as crenças culturais escondidas nos atalhos silenciosos das vidas daqueles homens que andaram na estrada para serem vistos e nunca conseguiram foram trágicas.
Depois desses anos todos, quando tomei conhecimento da queda do avião do time do Chapecoense com mortos e sobreviventes, imaginei estar no estádio com meu pai.
A medida que eu espreito as notícias da tragédia e as comparo com vidas que conheci, vou refazendo as conclusões, para finalmente entender que o inesperado se confrontou com os argumentos da morte fechando uma estrada que só permitiu a passagem de alguns, para os sobreviventes o universo atapetou um outro caminho como fez com alguns jogadores que foram treinados pelo pai que sobreviveram a depressão, o alcoolismo e a pobreza.
“Mens Sana in Corpore Sano”, beijo papai!

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “A CONVERSA”.

DR. GERSON

Dr. Gerson Barreto de Oliveira – Médico Nefrologista da Santa Casa de Caridade (CREMERS 18299 – RQE 11776)

Terminou o ano de 1982 e eu concluíra o ensino médio com quinze anos, naquela época podia ser assim, eu entrara com cinco anos no primário. Já há muito decidira fazer vestibular para medicina, e o que não é fácil hoje, também não era fácil naquele então.

Meus pais não eram ricos e já tinham o meu irmão em Porto Alegre, e decidi que era lá que eu tentaria entrar numa universidade.
Um menino, que desconhecia uma cidade como a capital gaúcha. Alguém me deu um conselho que achei ótimo, de conhecer a cidade de ônibus, para saber como me deslocar no futuro. Não havia todo este clima de violência incontrolável, e lá andava eu para nas horas vagas pegar um ônibus, ou quando o dinheiro da mesada permitia, uma lotação.
Outro conselho dado, este pelo meu pai, foi reforçar os laços de amizades que eles tinham com algumas famílias que lá residiam, algumas só por amizade, outras por laços de parentesco.
Não há como negar que quinze anos hoje é uma idade que as informações a que temos acesso permitem que os jovens mais antenados nos deem um show. Mas eu sou de uma época, como muitos, onde não havia computador nem internet. Eu somente estava feliz porque fui atrás do que queria, mas por alguns momentos sentia falta do afago da família.
Minha madrinha, cunhada da minha mãe, tinha quase toda família residente em um prédio do centro, e perto do meu. Lá era um universo de tios e tias, dentre elas, uma se sobressaía.
Era uma senhora altiva, de um carisma contagiante, professora aposentada da velha guarda, com traquejo com os jovens de fazer inveja a qualquer um. Pois bem, ela me procurou e me convocou como “neto honorário“. Isto, além dos festivos almoços de domingo, me valiam um panelão de feijão que semanalmente ela fazia. Posso dizer que era o melhor feijão de Porto Alegre, eu carregava até a minha casa a pé, um reforço e tanto na comida de estudante, ainda mais que o arroz feito no apartamento onde morava era um desastre, o feijão mascarava o unidos venceremos.
Torceu com verdadeiro entusiasmo, e ficou eufórica quando passei na PUC para medicina. Mas no terceiro ano do curso, eu soube que tinham diagnosticado um câncer de fígado nela.
Um dos filhos que era médico, e seria meu professor, como bom filho que era a levou para o melhor hospital que temos no país, na capital paulista.
Já sabendo a carga que esta doença traz, me contaram que, ela não tendo conhecidos em São Paulo, ficara muito só, e sendo extremamente devota ocupava seu tempo rezando à santa a quem venerava. Lembro bem, Nossa Senhora da Conceição, a mesma da igreja do túnel, passando a rodoviária de Porto Alegre.
Aquilo me deixou muito pensativo, como fazer para retribuir um pouco do carinho que recebi quando mais precisava?
Providencialmente uma prima, que era do lado do meu pai, e portanto não a conhecia, foi à São Paulo visitar nossos parentes. Liguei e pedi que fossem visitar a minha amiga enferma, fiquei realmente satisfeito por encontrar uma forma de chegar minha amizade numa cidade tão longe.
Diagnóstico feito, o tratamento orientado no melhor hospital era um só, nada podia ser feito, somente não deixá-la sentir dor.
O câncer é uma doença que começou a ser estudada quando as outras patologias que realmente matavam, durante os milênios de civilização, começaram a serem controladas. Houve a descoberta da cura da tuberculose, os antibióticos surgiram e foram desenvolvidos para tratar desde otites à pneumonias, que devastavam crianças, velhos e adultos. Os cientistas de repente se depararam com aquelas massas sólidas e enigmáticas, que somente a cirurgia não dava conta, e pior, não tinham sido suficientemente estudadas.
Para minha surpresa recente, descobri o livro que agora preenche minhas horas de folga “O Imperador de Todos os Males, uma biografia do câncer “, do badalado oncologista naturalizado americano, Siddhartha Mukkerjee. Nele há o relato que logo após a I Guerra os cientistas se depararam com a aplasia de medula em populações sobreviventes bombardeadas pelo temível gás mostarda. Com a II Guerra houve novamente a correlação, e se abria a porta para o tratamento chamado quimioterapia.
As guerras terríveis e devastadoras deram um fruto à humanidade. Existia uma chave para o tratamento das leucemias, e depois disso a quimioterapia se popularizou. A partir daí tudo foi muito rápido, com os milhões que a filantropia americana conseguiu para pesquisas. Sim, porque lá os ricos bem ricos se sentem em paz em fazer caridade com o dinheiro amealhado.
Mas com todos os avanços, a patologia câncer vêm dando trabalho e muitos ficam pelo caminho. Como tratar isso é difícil, como ouvir as verdades e o inventário de vida do doente é para muitos familiares doloroso, alguns surpreendem.
De volta à Porto Alegre minha amiga demonstrou com quantos quilates se faz uma mulher forte, e me chamou em seu apartamento. Confesso que nunca imaginei o que iria ouvir.
“Obrigada pela tua preocupação, afinal sei que foste tu que fizeste tua prima e uma amiga atravessarem São Paulo para me fazer companhia”. “Sabe, lá andei conversando muito com minha santa e pedi um sinal à ela“. “Caso eu merecesse, que ela me mandasse uma resposta às minhas preces, que fosse na forma de uma flor, se eu fosse morrer logo sem sofrimento, que recebesse rosas vermelhas, se a doença se prolongasse que as flores fossem amarelas, e se a cura desejada viesse, então que eu recebesse flores brancas. “ Nesta altura da conversa eu já estava num estágio entre o ceticismo e o pânico.
Mas a conversa fluía e eu não sabia o que retrucar. Não queria acreditar que minha prima tivesse tido a ideia de levar flores, eu nada sabia.
Sim, ela levara flores, e eram amarelas. “ A amiga que acompanhava tua prima também carregava flores, eram brancas, eu ainda perguntei para quem eram, mas ela respondeu que o objetivo seria para pagar uma promessa em uma igreja próxima, fiz força com o pensamento para que ela me desse pelo menos uma, mas isso não aconteceu”.
A santa, no entender da doente era clara na mensagem, haveria um longo sofrimento sim. “ Antes que o médico abrisse a boca eu já sabia o que estava acontecendo “ me disse então. E ela se manteve forte até o final, fazendo jus a impressão que transparecia a todos, era uma grande dama.
Conto agora este caso que parece muitas vezes inverossímil, provavelmente porque só fui entender há bem pouco o que presenciei, quando li num escrito do papa atual falando sobre “as sutilezas da fé”.
Tudo o que a medicina no final da década de 80 tinha de melhor foi oferecido, mas o que deu mais conforto e alento a uma paciente em fase avançada de câncer foi sua fé, sua religião. E ela se comportou com uma dignidade que já tendo vinte e seis anos de formado, pouco presenciei.
O menino de Bagé já não existia, porque foi aprendendo que em medicina há eventos curativos, mas há o trágico e desafiador destino que muitas vezes nos encolhe para ser o que realmente somos, humanos.

 

SEM COLIGAÇÕES: COMO TERIA SIDO A ELEIÇÃO EM SÃO GABRIEL?

CARLOS DIRNEI FOGAÇA MAIDANA – ADVOGADO

Com o advento da reforma política que tramita no Congresso Nacional, proibindo coligações, faz com que os políticos fiquem em alerta pois, se confirmada à proibição das Coligações nas eleições proporcionais (vereadores), o quadro partidário deverá sofrer profundas alterações com a migração para os partidos maiores.
Caso essa regra estivesse em vigor nas eleições de 2016, de um total de 20 partidos que participaram da eleição, em São Gabriel, 14 partidos estariam fora da eleição por não terem alcançado o quociente eleitoral e 6 partidos teriam alcançado o numero de votos para conquistar, pelo menos, uma vaga (2.398 votos).
Assim estariam fora do processo (não elegeriam nenhum vereador a REDE que fez 5 votos; PEN que fez 53 votos; PT do B que fez 69 votos; PRB que fez 391 votos; PROS que fez 501 votos; PV que fez 527 votos; DEM que fez 572 votos; PMDB que fez 710 votos; PC do B que fez 753 votos; PSC que fez 786 votos; PSD que fez 1.082 votos; PPS que fez 1.305 votos; PTB que fez 1.815 votos e SD que fez 2.069 votos.
Já o PSB que fez 2.805 votos; PR que fez 3.386 votos; PSDB que fez 3.628 votos; PT que fez 4.343 votos; PP que fez 4.466 votos e PDT que fez 6.801 votos seriam os Partidos com representação na Câmara de Vereadores.
Esta exigência, se estivesse em vigor, os Vereadores eleitos Adão Valdecir Martins Santana do PTB que fez 781 votos; André Matheus Chiappetta Focaccia do PSD que fez 762; Evaristo de Oliveira Guedes do PPS que fez 1057 e Renato da Silveira Viera do SD que fez 536 votos estariam alijados do processo e não teriam sido eleitos.
Outra situação que já estava em vigor na eleição deste ano (votação mínima do candidato – 10% do quociente eleitoral – 239 votos), dos 123 candidatos apenas 74 candidatos estariam fora do pleito.
Os eleitos devem ficar atentos, também, sobre a possibilidade ou não da troca de partido para não perderem o mandato que pertence ao Partido.
O total de eleitores aptos era de 47.085 eleitores, no entanto apenas 35.977 votaram validamente (76,40%).

A REVOLUÇÃO DOS HORRORES.

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Parte final

O livro “Voluntários do Martírio”, publicado em 1896 por Ângelo Dourado, médico da força revolucionária é um verdadeiro clássico sobre o assunto, um valioso documento sobre as forças de Gumercindo Saraiva. Foi ele que prestou socorro aos feridos no “Pulador”, em que calcula em 1.500 homens a força “maragata”, 800 dos quais lanceiros comandados por Prestes Guimarães, de Passo Fundo, e em 3 mil os combatentes “pica-paus”, distribuídos em três quadrados de infantaria, com mil guerreiros cada.
O general Prestes Guimarães, além de advogado, foi um dos grandes líderes da região, estando à frente inclusive da Revolução Federalista.
Segundo o historiador e diretor do Instituto Histórico de Passo Fundo, Fernando Miranda, havia uma rixa entre Prestes Guimarães e o então coronel Chicuta, herói da guerra do Paraguai.
O historiador conta ainda que, por volta de 1892 a briga entre os dois teve início devido a um ser favorável a República da época e o outro contrário.
A rivalidade dos dois marcou a história de Passo Fundo, sendo que hoje, Coronel Chicuta se tornou nome de uma das principais ruas da cidade. Já Prestes Guimarães, se tornou nome de uma escola do município.
Ângelo Cardoso Dourado nasceu em Salvador (BA), a 6 de outubro de 1856, e faleceu na cidade gaúcha de Rio Grande, a 23 de outubro de 1905.
Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, em 1880, prestou serviços médicos ao Exército, vindo a deslocar-se para o Rio Grande do Sul e exercendo sua profissão na cidade de Bagé, onde manteve sua família e atingiu projeção política, chegando a ser presidente da Junta Administrativa em 1890. Participou ativamente do movimento rebelde que sacudiu o Sul do Brasil à época da formação republicana.
Adepto dos revolucionários federalistas, Ângelo Dourado emigrou para Melo, no Uruguai, onde também exerceu a Medicina, e foi nomeado coronel do “Exército Libertador”, como se autodenominavam as forças rebeladas, percorrendo as terras do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, com as tropas do chefe maragato Gumercindo Saraiva em suas empreitadas contra as forças governistas.
Encerrada a revolta, permaneceu em terras rio-grandenses e exerceu a Medicina em várias localidades gaúchas, como na cidade de Rio Grande, na qual foi médico oculista. Após atravessar o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com mais de cinco mil homens, e ameaçar Curitiba, Gumercindo retornou ao Rio Grande do Sul com um exército reduzido e esfarrapado.
Realizava uma das maiores façanhas militares da história do Brasil, comparável à “Retirada de Laguna”, durante a guerra contra o Paraguai, alguns anos antes, e à “Coluna Prestes”, três décadas depois.
No lugar denominado “Tope”, os revolucionários receberam comunicado do coronel Verissimo de que continuava no Passo Fundo, tendo sepultado os seus mortos. Ele calculou o número de cadáveres deixado pelo inimigo em 800, não podendo se saber ao certo, porque muitos estavam confundidos com os dos inimigos.

O POTREIRO DAS ALMAS
A prática da degola dos prisioneiros não foi rara em ambos os lados contendores, adquirindo o caráter revanchista. Por muito tempo foi atribuído ao coronel maragato Adão Latorre a degola de 300 Pica-paus prisioneiros, às margens do Rio Negro, contidos em um cercado (mangueira de pedra) para gado, que ficou conhecido como “Potreiro das Almas” nas cercanias de Bagé, hoje em território do município de Hulha Negra, em 23 de Novembro de 1893, após a Batalha do Rio Negro.
O fato, porém, é desmentido por vários documentos históricos, como o Diário do general Maragato João Nunes da Silva Tavares, que refere o número de 300 como sendo as baixas totais do inimigo, entre mortos em combate e feridos.
O general afirmou que o número de degolados foi de 23 “patriotas”, membros das forças provisórias castilhistas, assassinos conhecidos em todo o Estado, pelas tropelias cometidas contra os Federalistas, particularmente no saque a Bagé no final de 1892 pelas forças dos coronéis castilhistas Pedroso e Motta.
Correm histórias em Bagé, que a noite, no “Potreiro das Almas”, os corajosos que se atrevem a ir até lá, conseguem escutar os lamentos dos degolados.
Em 1993, Centenário da Revolução Federalista, a Urcamp Bagé, através do professor, pesquisador e historiador doutor Tarcísio Antônio da Costa Taborda, realizou um conclave em comemoração a data, quando anunciou que Adão Latorre era um tenente-coronel do Exército Uruguaio e que atuava como mercenário na dita revolução.
Já no ano 2004 membros do Núcleo de Pesquisas Históricas de Bagé, visitaram o túmulo de “Chico Diabo” (na Guardinha) e logo a seguir o de Adão Latorre (cemitério de Santa Tecla) aproximadamente a oito quilômetros de Bagé.
José Francisco Lacerda, vulgo “Chico Diabo”, nasceu em Camaquã, no ano de 1848 e morreu em Cerro Largo, no ano de 1893. Foi um militar (cabo) brasileiro que lutou na Guerra do Paraguai e ficou famoso por ter matado o ditador paraguaio Francisco Solano López, na batalha de Cerro Corá, ocorrida em 1º de março de 1870.
Chico nasceu numa família de poucos recursos e, ainda menino, empregou-se na carniçaria de propriedade de um italiano, em São Lourenço do Sul, município vizinho à Camaquã, sua terra natal. Nesta carniçaria fabricava produtos como charque, linguiça e salame.
Em 1863, quando contava apenas 15 anos, Chico descuidou-se da vigilância e um cão entrou no recinto onde estava guardada a carne, devorando alguns pedaços. Ao tomar conhecimento do ocorrido pelo próprio Chico, o italiano passou a agredi-lo.
O menino tomou de uma faca usada no seu trabalho e matou seu patrão. De imediato, fugiu a pé para a casa de seus pais, onde chegou na manhã do dia seguinte, portanto caminhando um dia e uma noite sem parar para descanso.
Ao ver um vulto, ao longe, a mãe de Chico exclamou: “Garanto que é aquele diabinho que vem vindo”. Por causa desta frase, ganhou o apelido de “Chico Diabo” que o acompanharia pelo resto da vida.
Os pesquisadores aproveitaram para conhecer o local onde moravam os pais de Adão Latorre, no lugar conhecido como “Rodeio Colorado”. Sabe-se que o coronel Manoel Pedroso depois de atear fogo na Estância do Limoeiro cruzou pelos “Olhos D’Água” e a poucos quilômetros, próximo a Encruzilhada, degolou os pais de Adão Latorre e ateou fogo no seu rancho.
Por esse motivo é que Adão Latorre se apresentou como voluntário aos revolucionários com o intuito de vingar o assassinato de seus pais por Manoel Pedroso, o que aconteceu com a sua degola.
Contam que Pedroso, antes de morrer, pediu a Adão que entregasse um anel de seu uso a uma filha residente em Pelotas, o que foi feito pelo degolador. Passaram-se anos e segundo as pessoas que conviveram com Adão, era um cidadão de paz, amigo e servidor.
Pedro Antônio de Souza Neto, o “Tio Pedro”, ferreiro do antigo 12º RC, hoje “3º Batalhão Logístico Presidente Médici”, contou que no ano de 1923, com a patente de 3º sargento do Exército, foi designado a integrar um pelotão para fazer o translado do corpo de Adão Latorre do Passo da Maria Chica (Ferraria, Dom Pedrito) para Bagé, onde foi sepultado no cemitério de Santa Tecla onde se encontra até hoje, juntamente com seu irmão, o major João Latorre.
Segundo informações, Adão Latorre foi fuzilado pelos capangas do major Antero Pedroso irmão de Manoel Pedroso em uma emboscada. Pedro Antônio de Souza Neto desempenhou suas funções no 3º Batalhão Logístico, até os 90 anos de idade, vindo a falecer com toda a sua lucidez, aos 93 anos.
Ele tinha dois filhos com sua primeira companheira, Maria Francisca Nunes, João Latorre e Nicamoza Latorre, ambos uruguaios. Deixou oito braças de sesmaria e a casa onde morava para Josefina Machado, sua segunda companheira.

A FACA DE ADÃO LATORRE
Adão Latorre foi contemplado com uma composição musical de autoria de Moisés Silveira de Menezes, intitulada “A faca de Adão Latorre”:
A faca, lâmina, cabo/ferro e pau-ferro fundidos/a faca parte, reparte/corta, perfura, ponteia/passa, perpassa, transpassa./A faca fere se é fera/o mando que ergue a mão/garra tenaz que a sustenta/fera feroz fere a faca/por isso ferro com fio/fio de vida, fio de morte/vida fugaz, fio da faca.
A faca de Adão Latorre/é faca na mão de negro/negro acuado, negro fera/negro ferido de açoite/tronco amarrado no tronco/marcas de algemas nas mãos/correntes nos pés descalços./Tem olhos negros a faca /olhos de medo, assustados/noite nos olhos a faca/olhos de vida fugindo/pelo fio fino da faca.
A faca de Adão Latorre/traz marcas, marcas doridas/canaviais, minas, senzalas/África, banzo, savana/revoltos mares bravios/porão cheio, porão sujo/úmido, fétido, impuro./Grilhões arrastando gente/ao rumo desconhecido/leilão, chicote, trabalho,/não cantavam tribos negras:/”Mérica, mérica, mérica”.
A faca de Adão Latorre/é faca rumo à garganta/do branco que tem o mando;/dono de tudo e de todos,/senhor de terras e almas./É faca do oprimido/a mando de outro opressor/cumpre ordens negro velho/brancas ordens, ordens sujas/vai pra história negro Adão/bandido, degolador/feroz de faca na mão.
Um grande rio o Rio Grande/o Rio Negro rubro vivo,/rio de sangue/negro ingrato,/anjo sinistro da morte./A vida no fio da faca/vertendo sangue de irmãos,/irmãos de distintos lenços./Guilhotina em movimento/estranho açougue de gente,/pergunta que não se cala:/A quem vingava Latorre/feroz de faca na mão?
Pedroso, o coronel branco/porque preso, presa fácil/negaceia, regateia/pensa até que a vida vale/vida de homem de bem/vida de homem valente/Vida opressora não vale/na mão de negro oprimido,/mas o mando é sempre branco,/no final, manda Pedroso:/”Então degola, degola/negro filho de uma puta.”
A faca de Adão Latorre/cortou bem forte e bem fundo/a carne viva da história./Inconsciente, rude e feia/a cicatriz do Rio Negro/desnuda a casta social/brandindo a lâmina crua/sangrando vidas e vozes./Mas a pergunta não cala:/Cumprindo ordens de branco/a quem vingava Latorre/feroz de faca na mão?

O COMBATE DO BOI PRETO
Em 5 de Abril no “Combate do Boi Preto” houve a degola de 250 maragatos em represália à “Degola do Rio Negro”. O pica-pau “Cherengue” ou “Xerengue” rivalizou com Latorre em número de degolas praticadas. Seu apelido, em linguagem popular, queria dizer faca ordinária.
O “Cherengue” ou “Xerengue” deu lugar a uma poesia feita por um poeta jornalista e que apareceu em “O Canabarro”, em 1903. Tratava-se de uma das costumeiras bicadas do jornal.
Já que pedem, cedo/Por hoje esta bicada;/Mas confesso tenho medo/Do João Francisco e Brigada/Xerengue não é brinquedo/Bicar assim corro risco/Por tanto confesso medo/Da Brigada e João Francisco.
Muitas vezes a degola era praticada em meio a zombarias e humilhações. Embora não com frequência, poderia ser antecedida por castração. Conta-se, por exemplo, que apostas eram feitas em corridas de degolados.
Na degola convencional a vítima, ajoelhada, tinha as pernas e mãos amarradas, a cabeça estendida para trás e a faca era passada de orelha a orelha, como se degolasse uma ovelha, rotina nas lides do campo.
Os ressentimentos acumulados, as desavenças pessoais, somados ao caráter rude do homem da campanha acostumado a sacrificar o gado, tentam explicar estes atos de selvageria.
Do ponto de vista militar e logístico a degola decorria da incapacidade das forças em combate de fazer prisioneiros, mantê-los encarcerados e alimentá-los, pois, ambas lutavam em situação de grande penúria. Procurava-se, pelo mesmo motivo, poupar munição empregando um meio rápido de execução.
Durante a Revolução de 1893, o município de Cruz Alta foi apelidado de “Ninho dos Pica-paus”, sendo um dos mais importantes palcos dos acontecimentos, e também o lugar onde a prática da degola neste período foi mais intensa.
Cruz Alta foi atacada em 26 de agosto de 1894 pelas tropas maragatas sob o comando de Aparício Saraiva, irmão de Gumercindo Saraiva (morto dias antes em Carovi, perto de Santiago), com aproximadamente 1.500 homens. A cidade foi atacada por oito horas sem tréguas.

A HIENA DO CATY
No combate de Campo Osório a 24 de junho de 1895, episódio final da revolução federalista e onde foi morto a golpe de lança o almirante Luis Felipe Saldanha da Gama pelos cavalarianos gaúchos da força de provisórios sob o comando do coronel João Francisco Pereira de Sousa, denominado por Flores da Cunha a “Hiena do Caty” foram degolados dois guardas marinhas das hostes do malogrado almirante.
Com os prisioneiros contidos e deitados, o cabo degolador do coronel João Francisco debruçou-se sobre eles suspendendo com o pé direito a cabeça das vitimas. Com a mão esquerda conteve a respiração, colocando os dedos nas fossas nasais e a palma da mão sobre a boca do rapaz.
As veias do pescoço ressaltadas e entumecidas, neste momento a mão direita enterrava a lâmina da faca logo abaixo do queixo num vai e vem. A degola se consumara.
Este relato consta de uma carta de testemunha ocular do episódio e se encontra no arquivo do historiador gaúcho Alfredo Jacques, através do seu “Dom Ramon” no livro “Os Provisórios”.
E explica: “Degolar não era tão fácil como parecia. Requeria ciência. O gaúcho velho explicava minucias, ensinava processos e concluía: “Hay dos maneras de degolar um cristiano, a la brasilera (dois talhinhos seccionando as carótidas, a la criolla (de orelha a orelha).
Esses processos de degolamento, utilizados em nossas lutas revolucionárias, constituem um ato que desmente todo o tradicional no gauchismo, pois reflete terrível covardia: matar um adversário contido, amarrado, já vencido e muitas vezes ferido.
Inúmeros foram os casos em que a faca do degolador atingiu o osso hióide, as cartilagens de traquéia ou da laringe, não ocasionando morte, mas o ferimento era gravíssimo, pois realizava a abertura dos órgãos respiratórios e digestivos, junto ao pescoço.
Sabe-se de relatos de um médico que suturou vários destes traumatismos durante a revolução de 1923, exigindo trabalho cirúrgico de grande perícia para sua resolução.
O acaudilhamento do chefete-guerrilheiro rural surgia de sua insegurança patrimonial, sem terra, ignorante na interpretação da doutrina politica e da valentia fanfarrona até hoje cantada pelos trovadores.
Um clássico da música nativa do Rio Grande do Sul é “Colorada”, de autoria do cantor e compositor Mário Barbará:
Olha a faca de bom corte olha o medo na garganta/O talho certo e a morte no sangue que se levanta/Onde havia um lenço branco brota um rubro de sol por/Se o lenço era colorado o novo é da mesma cor.
Quem mata chamam bandido quem morre chamam herói/O fio que dói em quem morre/Na mão que abate e não dói/Na mão que abate e não dói.
Era no tempo das revoluções/Das guerras braba, de irmão contra irmão/Dos lenço branco contra os lenço colorado/Dos mercenário contratado a patacão.
Era no tempo que os morto votavam/E governavam os vivos até nas eleição/Era no tempo dos combate a ferro branco/Que fuzil tinha mui pouco e era escassa a munição;
Era no tempo do inimigo não se poupa/Prisioneiro era defunto e se não fosse era exceção/Botavam nele a gravata colorada/Que era o nome da degola nestes tempos de leão.
Há poucos anos a professora de um colégio durante uma festa tradicional, fez um dos meninos recitar publicamente este versinho de nosso folclore:
Quem arrogante pisar/No poncho da gauchada/Há de sentir a vacina/
Da gravata colorada…
Durante a “Revolução Paulista de 1932”, um grupo de gaúchos, “Os Pé no Chão” de Palmeira das Missões, liderados pelo caudilho Vazulmiro Dutra, entrincheirados perto de um posto paulista, junto à fronteira paranaense, gritavam á noite: “É só te pegar que te passo a gravata colorada”.
Pois numa das viagens do então presidente do Brasil, Getúlio Vargas (isso durante o Estado Novo), alguns coronéis e pecuaristas resolveram homenagear o ditador com uma grande churrascada no Country Club. Nessas idas e vindas um tanto fisiológicas, uma década depois, Vazulmiro fora nomeado delegado regional do Instituto Nacional do Mate.
Por coincidência, o coronel estava ao lado de Vargas na imponente mesa quando trouxeram o espeto com a costela para servir o presidente.
Aproveitando a ocasião, Vazulmiro puxou da cintura um facão enorme, oferecendo-se para servi-lo. Getúlio, ao ver de quem se tratava, fitou o coronel com uma cara marota – que entendeu perfeitamente a brincadeira. E respondeu, entre risos gerais: “Calma doutor Getúlio, essa faca o senhor não precisa se preocupar não foi usada ainda”.
A arma fundamental do gaúcho é a faca, instrumento que serve para tudo: carneia o gado, embeleza suas vestimentas, mata o inimigo e até apara e limpa as unhas. Cada vez que alardeia valentia, a faca esta aí para garantir.
Vazulmiro cumpriu as etapas de um genuíno caudilho, conforme escreve Loiva Otero Félix. Exercitou-se na vida econômica, foi estancieiro, assumiu papel político e adquiriu condição de chefe militar.
Patriarca como o foram quase todos os caudilhos do Rio Grande do Sul, exerceu diversas funções públicas. Participou da Revolução de 1923, ao lado do Partido Republicano Rio-grandense, limitando sua ação à região de Palmeira das Missões. Existem várias tendências da historiografia sobre a presença dos caudilhos no Rio Grande do Sul.

OS GRANDES CAUDILHOS
O caudilhismo foi traço marcante no Rio Grande do Sul, em face da ocupação militarizada da área fronteiriça. Não pode ser dissociado de seu contexto platino, já que são constatadas aproximações e semelhanças.
A oligarquia rural é fornecedora de caudilhos, revolucionários e legalistas, tanto em nível regional como nacional, já que a classe dominante rio-grandense, os estancieiros, fazia valer sua posição do poder central, em relação à classe dominante regional, ora apoiando o governo central, se houvesse interesses comuns, ora auxiliando os revolucionários, se em conflito com os interesses oligárquicos.
Os nossos grandes caudilhos foram produtos das planícies: Pinheiro Machado, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, Flores da Cunha, Honório Lemes, Assis Brasil, Felipe Portinho, João Francisco Pereira de Sousa, Antônio Ferreira Prestes Guimarães e o mais famoso de todos, o gabrielense José Serafim de Castilho, “Juca Tigre”, conhecido como “Peito de Ferro” e outros.
Todos os degoladores de nossas forças revolucionárias eram homens ignorantes e sem terra, mas com formação e elã telúrico de valentia inata. O ato de agradar ao patrão que o escravizava, justificava qualquer tarefa e a degola era o que mais impressionava seus chefes.
Psicologicamente o degolador era um místico e o chefe, um realista. Matar era um ato de rotina e o mais fácil era usar a arma predileta a faca, e as carótidas estavam somente protegidas por uma massa muscular mole, facílima de ser seccionada.
E a prática esmerou a técnica. Leonel Rocha que foi um caudilho à pé, não pampiano, e teve como companheiros os “mateiros do Alto Uruguai”, pelo que se conseguiu investigar, não permitiam a degola.
Pequeno agricultor e quase analfabeto, Leonel Rocha trabalhava de enxada em terras que não lhe pertenciam, o que o diferenciava de todos os demais caudilhos gaúchos.
Em 1923, reúne uma coluna de quase mil homens, mantendo combate com a maior e melhor parte da coluna do General Firmino de Paula.
Os fazendeiros o desprezavam, os roceiros viam nele um espelho de seus próprios sentimentos, um depositário de suas insatisfações, preconceitos e de suas vagas esperanças.

A DEGOLA EM CANUDOS
E a degola gaúcha se fez presente em Canudos, na Bahia. Euclides da Cunha, ao tratar do gaúcho tece loas à combatividade da Infantaria do Sul, que qualificou como “uma arma de choque”: “Podem suplantá-la outras tropas, na precisão e na disciplina de fogo, ou no jogo complexo das manobras. Mas nos encontros à arma branca aqueles centauros apeados arremetem com os contrários, como se copiassem a carreira dos ginetes ensofregados das pampas”.
Apesar desses elogios românticos, a crueza dos fatos venceu o estilo euclidiano. Com seus próprios olhos, o escritor compreendeu o que significava a especialidade daqueles homens no manejo da “arma branca”.
Os gaúchos agarravam cada derrotado pelos cabelos, lhe dobrando a cabeça, esgargalando o pescoço e, francamente exposta a garganta, degolavam-na. Conforme Manoel Benício, correspondente do “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro, essas degolas ocorriam “sem diferença de sexo e idade”.
Para suas vivências nos cenários da guerra transpunham, assim, as técnicas das “charqueadas” dos pampas, impressionante matadouro destinado a obter a matéria-prima para fabricar o charque (carne-seca), principal produto de exportação, onde se habituavam a conviver com a morte violenta.
É possível imaginar os soldados gaúchos transitando nos espaços dos combates com os canos das botas e as bombachas ensanguentadas, insígnias onde tinham limpado as armas assassinas e onde tinha respingado o sangue das vítimas.
Pensávamos que barbaridades, tão tétricas quanto cabeças decepadas, jamais sairiam do passado. Mas os ditos humanos não têm mesmo jeito. Não é que o barbarismo está de volta? Por sorte, bem longe daqui.
Ele agora nos é servido com uma pitada a mais de crueldade: a divulgação pela Internet dos crimes do “Estado Islâmico”. Os novos Adões Latorre, de rosto escondido, espalham-no pelo mundo, de forma a que todos, inclusive os apavorados familiares das vítimas, o presenciem.
(Pesquisa: Nilo Dias)

NERO, O IMPERADOR DO BIANCHETTI.

Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 - RQE 11776

Dr. Gerson Barreto de Oliveira
Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel
CREMERS 18299 – RQE 11776

O “seu” Nero era o mais antigo garçon do Restaurante do meu pai, o Esquina Bianchetti. As bravatas eram inúmeras, e ele, para pegar um cliente importante, era um astuto só.
A rotina de um restaurante até hoje me faz sentir em casa, o cheiro de comida, o barulho da louça sendo tirada, dos copos, das garrafas, tudo isso me lembra a infância, e se tem máquina de café, então é pura saudade.
Cada cidade tem o seu restaurante popular, com uma comida honesta e saborosa. Em Pelotas, o Cruz de Malta; em Santa Maria, o Augusto; em Porto Alegre, o Gambrinus, e por aí vai. Em Bagé, especialmente para mim, o Bianchetti da minha infância.
As peripécias do Nero foram muitas. Quando Nelson Marchezan fez uma estrondosa votação para deputado, lá pela década de 70, a alegria do nosso garçon foi tanta ao ver o seu deputado adentrar ao salão do Bianchetti, que ele pulou para cima do homem. Marchezan era um homem alto, fortão, e Nero era pequeno e com uma saliente barriga. Pois não é que o deputado o pega no colo, em pleno salão, e justo na hora do recreio do turno da noite do Colégio Estadual! A casa veio abaixo, já que por ser também uma lancheria o prédio lotava neste momento.
Juca Chaves, com sua voz satírica de protesto, humor corrosivo nas suas modinhas, esculachava com a repressão aos costumes, na época da ditadura militar, e por tabela criticava com mordacidade o governo. E ele entrou no salão do Bianchetti no momento do clímax noturno, o recreio do Estadual, e quem o serviu ? Sim, ele, o Nero. Juca exigia beijinhos de todas as meninas que iam pedir autógrafo, pequeno e narigudo, um figuraça.
Outro grande momento do Nero foi a chegada de um general de alto escalão, que vinha na cidade visitar o presidente Médici, já retirado da vida pública em sua propriedade rural em Bagé. Primeiro entraram os seguranças para planejar a medidas de proteção da distinta figura. Minha mãe foi para a cozinha comandar as cozinheiras para que o ponto da massa saísse perfeito, uma especialidade da casa. As toalhas haviam sido trocadas, o pão havia sido previamente aquecido para, junto com as cremeirinhas com margarina, irem à mesa. Claro que o Nero já tinha dado um chega para lá nos colegas e, atarantado, corria de um lado para o outro para servir o casal – o general e a esposa. Esta, não vendo os copos para a bebida, pede ao nosso herói que traga duas taças. Para espanto dos meus pais, que a tudo assistiam, ele tira os copos do bolso e os coloca à mesa, com sorriso de satisfação de sua própria eficiência. Minha mãe desapareceu! Restou ao meu pai passar a mão nos tais copos, e trocar por outros.
Hoje se houve muito: “Você é o que você come”. Sim, é importante observar a dieta, exercícios físicos e moderação no álcool, mas quem resiste à um prato de massa, ou um filé a caneco?
E aproveito este espaço para um pouco de nostalgia alimentar, a receita do fabuloso “Filé a caneco do Bianchetti” : pegue um naco de filé não batido, coloque numa chapa quente, por cima coloque uma lata vazia de compota, com furos na parte superior, por onde vai se pingando manteiga. Nada superará a maciez da carne, sirva com algum acompanhamento e respire fundo, pois é uma boa comida que nos faz sentir uma sensação de felicidade, fugaz como todas as coisas boas da vida, mesmo assim felicidade.

A REVOLUÇÃO DOS HORRORES

revolucao(Primeira Parte)

O jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, escreveu no jornal “Correio do Povo”, de Porto Alegre, durante os festejos da “Semana Farroupilha” deste ano, um interessante artigo com o título de “Aos nossos degoladores, com afeto”. Disse o jornalista que em uma viagem sua para Camaquã, onde foi patrono da “Feira do Livro”, o historiador Luiz Cláudio Knierim, que se tornou muito conhecido depois de ter chamado o acampamento farroupilha de Porto Alegre de “favelão gaudério”, lembrou que estamos rememorando os 120 anos da “Revolução Federalista de 1893”, a revolução da degola.
E, também, os 90 anos da “Revolução de 1923”, o conflito que acabou com o reinado de Borges de Medeiros baseado em eleições fraudadas em que mortos votavam e vivos eram levados no cabresto. E pergunta: “Por que não comemoramos tudo isso?”
Conta que existe um livro maravilhoso sobre nossos heroicos tempos da degola: “Voluntários do martírio, narrativa da revolução de 1893”, do médico e protagonista dos acontecimentos, Ângelo Dourado. É um catálogo dos horrores.
Ângelo Dourado conta que a crueldade na região serrana foi tanta que a simples narração dos fatos causa repugnância. Lembra que, em Cruz Alta, no “Rincão do Cadeado”, havia 108 viúvas de “maragatos” degolados, e que no “Rincão da Cruz”, contavam-se pelos nomes, 86 vítimas da degola.
E que esses números poderiam ser maiores. O município mãe de Passo Fundo era governado pelo caudilho José Gabriel da Silva Lima, que dizia jamais ter pensado que a carne humana fosse tão boa para engordar cães e porcos. Os federalistas ou seus simpatizantes eram presos à noite e, depois, pela manhã, retirados em grupos para serem executados.
Ângelo Dourado é fiel em suas descrições. Conta que quando chegaram em Carazinho os federalistas sentiram o poder da guerra psicológica movida pelos pica-paus. Toda a população do povoado fugira para os matos, levando os velhos e as crianças.
Apenas uma mulher ficara na povoação, dizendo que preferia ver os “maragatos” a morrer de frio nas brenhas e que os republicanos é que eram maus, pois prendiam, açoitavam e matavam, enquanto os revolucionários passavam sem nada fazer, sem arrombar uma casa sequer.
Para os menos afeitos a livros volumosos, Juremir recomenda “Maragatos e pica-paus – guerra civil e degola no Rio Grande”, do saudoso Carlos Reverbel. Eu tenho o livro, é verdadeiramente uma obra prima, na medida em que mostra como nossos degoladores eram eficientes e dedicados.
Reverbel resume tudo cirurgicamente: “A revolução de 93 teve a duração de 31 meses e fez nada menos do que 10 mil vítimas. Destas, mais de mil morreram por degolamento, calculando-se meio por baixo, sem querer forçar os algarismos”.
Chega-se a esta conclusão levando-se em conta a estatística das duas grandes sessões de degolas da revolução, “Rio Negro” e “Boi Preto”, em que as duas perfazem um total aproximado de 700 gargantas cortadas.
Prossegue Reverbel: “Um método limpo, ecológico e econômico”. A sucção, por lâmina cortante, do feixe vásculo nervoso do pescoço, ocasiona o desfalecimento em segundos e a morte em minutos.

MARAGATOS E CHIMANGOS
“Maragato” foi o nome dado aos sulistas que iniciaram a “Revolução Federalista” no Rio Grande do Sul em 1893, em protesto a política exercida pelo governo federal representada na província por Júlio de Castilhos. Os “maragatos” eram identificados pelo uso de um lenço vermelho no pescoço.
O termo tinha uma conotação pejorativa atribuída pelos legalistas aos revoltosos liderados por Gaspar da Silveira Martins, eminente tribuno, e caudilho estrategista e Gumercindo Saraiva, que deixaram o exílio, no Uruguai, e entraram no Rio Grande do Sul à frente de um exército de lenços vermelhos.
Como o exílio havia ocorrido em região do Uruguai colonizada por pessoas originárias da “Maragateria” (na Espanha), os republicanos, então chamados “Pica-paus”, os apelidaram de “Maragatos”, buscando caracterizar uma identidade “estrangeira” aos federalistas.
Com o tempo, o termo perdeu a conotação pejorativa e assumiu significado positivo, aceito e defendido pelos federalistas e seus sucessores políticos.
Na “Revolução de 1923” desencadeada contra a permanência de Borges de Medeiros no governo do estado, novamente a corrente “maragata” rebelou-se, liderada pelo diplomata e pecuarista Assis Brasil.
Seus antagonistas que detinham o governo eram chamados no Rio Grande do Sul, de “Chimangos”, comparando-os à ave de rapina. O lenço vermelho identificava o “Maragato”. O lenço branco identificava o “Pica-pau” e o “Chimango”.
O movimento originou, no Rio Grande do Sul, o “Partido Libertador”, de grande influência regional.
Os federalistas de Gaspar Silveira Martins queriam o fim da ditadura de Júlio de Castilhos. Em “Rio Negro”, perto de Bagé, os “maragatos” passaram a faca nos castilhistas. O negro Adão Latorre teria degolado 300 inimigos sozinho.
O troco veio em “Boi Preto”, em 5 de abril de 1894, no município de Palmeira: de 400 federalistas que caíram prisioneiros, 300 foram degolados.

UM DEGOLADOR PERFEITO
Adão Latorre era perfeito na técnica de exímio degolador das forças federalistas na “Revolução de 1893”. Contido o inimigo, encostava a faca na ponta do nariz do prisioneiro que elevava a cabeça, então a afiadíssima lâmina era introduzida agilmente no pescoço, incisando horizontalmente as estruturas do osso hioideo, de orelha a orelha.
Solta imediatamente a vítima dava um ou dois passos, emitia um grunhido terrível e caia desfalecida. Quando isto não acontecia, o degolamento era incompleto. A vítima era novamente agarrada para executar o “jorramento” do sangue e completar o ato da execução.
Com uma adaga de 15 centímetros, Latorre foi o grande executor. Entre as vítimas estava o oficial “Chimango” Manoel Pedroso, acusado de ter mandado matar a família de Latorre em Bagé, meses antes.
E dizem os que escaparam que Adão chamava um a um e mandava-os pronunciar a letra jota. Aquele que, em vez de jota, pronunciava “rota”, era castelhano e recebia, incontinenti, o aço afiado que lhe abria o talho de orelha a orelha.
Adão Latorre foi morto por fuzilamento na “Revolução de 1923”, pelas rajadas das primeiras metralhadoras utilizadas em guerra no Rio Grande do Sul, e teve seu cadáver degolado.
Foi designado um pelotão para fazer o translado do seu corpo do “Passo da Maria Chica”, na localidade de Ferraria, em Dom Pedrito para Bagé, sendo sepultado no “Cemitério dos Anjos”, em outro ponto da estrada do “Tigre”, em um filete de terra dentro de uma propriedade rural, onde se encontra até hoje, juntamente com seu irmão, o major João Latorre.
O “Cemitério dos Anjos” entrou no esquecimento. Quase não há visitantes, tampouco flores. Somente mato e tumbas esquecidas, um túmulo cravejado a balas e outros demolidos.
Segundo informações, Adão Latorre foi fuzilado pelos capangas do major Antero Pedroso, irmão de Manoel Pedroso em uma emboscada. Ele tinha pouco mais de 80 anos de idade.
A tapera de sua casa se decompõe e desaparece, aos poucos, silenciosa, à beira da estrada que conduz ao “Passo do Tigre”, periferia da cidade de Bagé, em direção ao “Forte Santa Tecla”. Só existe uma parede levantada, muito mato tomando conta e um poço esquecido. Poucos vão visitar.
Contavam muitas histórias a respeito de Adão Latorre. Uma delas fala que existiam questões nunca resolvidas entre os irmãos Tavares, a quem o degolador servia.
Manoel Pedroso, levado ao sacrifício indagou do seu carrasco, Adão: “Quanto vale a vida de um homem valente de bem?” E a resposta veio pronta e seca: “Valente pode ser! De bem não sei, não. A tua vida não vale nada, pois está no fio da minha faca”. O coronel levantou a cabeça oferecendo o pescoço e dizendo: “Então, degola negro filho da puta”.

A MORTE DE GUMERCINDO SARAIVA
A história a seguir está contada no livro “Maragatos e Pica-paus, Guerra Civil e Degola no Rio Grande do Sul”, de autoria do escritor Carlos Reverbel.
Gumercindo Saraiva morreu em 10 de agosto de 1894, após ser atingido por um tiro, desferido à traição, enquanto reconhecia o terreno na véspera da “Batalha do Carovi”. O tiro pegou no tórax, dera certo à tocaia, e o lugar ficou conhecido como “Capão da Batalha”, em área hoje situada no município de “Capão do Cipó”, próximo a Santiago.
Gumercindo também marchava morto, em cima de uma carreta. Mas também marchava. Aos lados, fazendo alas, como numa guarda de honra, marchavam os seus capitães ajudantes de ordens, Lindolfo Weber, Hilário Montiel, João e Henrique Freitas e os seus tenentes ajudantes de ordens, Jerônimo Freitas, Pedro Cabrera e os irmãos Garcia.
Como se ele ainda pudesse precisar dos seus cuidados, o doutor Lucas Bicalho Hungria, primeiro tenente médico do “Encouraçado Aquidabã”, que havia se incorporado ao “Exército Libertador” em Santa Catarina, não se afastava da carreta mortuária.
Ângelo Dourado, o outro médico da coluna, “baiano de bombacha e espada”, no dizer de Augusto Meyer, se ausentara para levar à tropa a última palavra do chefe morto, mas ainda o chefe.
Ele tombara, mas a coluna ainda marchava sob a sua voz de comando. E assim se fez sua última vontade durante toda aquela noite.
No dia seguinte, 11 de agosto, a coluna se deteve às oito e meia da noite, junto ao “Cemitério dos Capuchinhos de Santo Antônio”, um campo santo rústico de campanha, situado entre os rios Camaquã e Itacurubi, nas cercanias da Estância de Antônio Moraes, quase na divisa dos municípios de Santiago do Boqueirão e São Borja.
Baixado o corpo da carreta, ainda coberto com o velho poncho, agora fazendo vezes de mortalha e esquife, foi lhe dado sepultura, quando já anoitecera. Lavrou-se uma ata da cerimônia, assinada por diversos oficiais superiores da coluna e por Cícero Saraiva, representando a família.
Aparício, de acordo com a última ordem do irmão, estava ausente, tomando muito cuidado com o flanco esquerdo da coluna, enquanto Torquato Severo, obedecendo à mesma voz de comando, fazia a retaguarda.
Em 12 de agosto de 1894, um dia após o sepultamento de Gumercindo Saraiva, as forças do “Exército do Norte” que perseguiram os federalistas, chegaram ao “Cemitério dos Capuchinhos de Santo Antônio”.
Desta vez não era a Brigada do coronel Manoel do Nascimento Vargas, que fazia a vanguarda da tropa governista. Era a Brigada do coronel Firmino de Paula, também integrante da “Divisão do Norte”.
Informado de que Gumercindo Saraiva havia sido sepultado naquele local, Firmino mandou reabrir a cova e dela retirar o cadáver do general revolucionário. Colocando-o na beira da estrada, situada um pouco a frente do pequeno cemitério campeiro, ali postou-se a espera da passagem da “Divisão do Norte”.
Esta não tardou a aparecer no alto da coxilha, com os seus cinco mil homens no fastígio do papel que lhes coubera desempenhar na revolução.
Era tal, porém, a fama com que aureolava o nome de Gumercindo Saraiva, como guerrilheiro quase lendário, que os chefes da “Divisão do Norte” fizeram a tropa desfilar ao lado de seu cadáver, para todos ficarem certos de que ele havia efetivamente sido derrotado e estava morto..

A HISTÓRIA DAS CHAPELEIRAS
Era como se estivessem desfilando sobre os despojos da própria revolução. Além de ter chamado para si a profanação da sepultura, o coronel Firmino mandou cortar a cabeça do corpo de Gumercindo, recolhendo-a como precioso troféu, não para si, mas destinada a alguém que julgava mais merecedor de recebê-la.
Então a confiou ao coronel Ramiro de Oliveira, confidenciando-lhe, ao mesmo tempo, a missão que lhe caberia desempenhar. O coronel tocou-se para Porto Alegre, hospedando-se no “Hotel Lagache”, acompanhado de seu ordenança.
O Hotel Lagache, fundado por Gustavo Maynard ficava situado na rua Marechal Floriano. Depois os sócios desfizeram-se do hotel e compraram o “Hotel Brasil”, na Rua dos Andradas, em frente a Praça da Alfândega, situado num antigo prédio onde hoje encontra-se a sede do “Clube do Comércio”. Remodelado, desde 1908 passou a se chamar de “Grande Hotel”.
Sem perda de tempo, encaminhou-se a uma chapelaria, estabelecida na Rua da Praia, onde adquiriu duas chapeleiras. Explicação para a aquisição de duas chapeleiras, segundo o jornalista, ensaísta, poeta, memorialista e folclorista Augusto Mayer: “Para falar a verdade, entra no caso outra cabeça, mas até hoje não se sabe a que tronco pertencia”.
De posse das duas caixas de chapéu, o coronel retornou ao quarto do “Hotel Lagache”. Depois de curta demora, saiu novamente à rua, dessa vez acompanhado do seu ordenança que lhe seguia os passos, guardando certa distância e carregando zelosamente, as duas chapeleiras.
Dirigiram-se para a “Praça Quinze”, onde tomaram um carro, tirado a dois cavalos, mandando o boleeiro tocar para a “Praça da Matriz”. Chegando ao “Palácio do Governo”, informa Augusto Meyer, o coronel foi logo recebido por Júlio de Castilhos, que tratou de saber do misterioso conteúdo daquelas caixas, colocadas bem à vista em cima da mesa, na sala de recepção.
Ao tomar conhecimento da natureza dos troféus que lhe estavam sendo entregues, Castilhos, possuído por violenta cólera, cortou a palavra do sinistro visitante.
E aos gritos mandou que se retirasse. Numa das chapeleiras estava à cabeça de Gumercindo Saraiva. A que ocupava a outra chapeleira jamais foi identificada. Não chegaram sequer a ser abertas na presença de Castilhos, tal o seu assomo de revolta em face da tentativa.
Ele havia fechado os olhos a muita violência contra os adversários, mas não era sádico e muito menos insano. Depois, sabia naquelas alturas que a revolução estava nos seus últimos dias. “Compreendo agora”, teria desabafado no seu assomo de revolta, “porque o povo anda a apontar-me como responsável pelas atrocidades que se pratica em nome da lei”.
O caso das chapeleiras transpirou. Dele se falava à boca pequena nas rodas palacianas. O coronel, na maior das frustrações, reduzidas a zero, quando esperava copiosas benesses republicanas, tratou logo de retornar ao aconchego de seu acampamento.
Momentos antes de tomar o trem, o coronel foi procurado, ainda no quarto do hotel, pelo gerente do jornal “A Federação”, que se fazia acompanhar de alguns amigos e correligionários mais chegados.
Sabedor do episódio, o zeloso gerente desejava saber o fim que tinha sido dado às duas chapeleiras e respectivas cabeças. Elas ainda estavam ali no quarto, embaixo da cama. E o coronel disse que pretendia jogá-las no rio, de dentro do trem, ao passar por uma grande ponte.
O homem de “A Federação” não aprovou a idéia, pelo menos em relação a uma cabeça. Achou que era merecedora de melhor sorte. E sentenciou: “Quem combate com lealdade o adversário político ainda em vida, está na obrigação de respeitá-lo depois de morto”.
Então, com a concordância do coronel, apossou-se da cabeça de Gumercindo Saraiva e foi enterrá-la nos alicerces da casa onde morou, no “Beco do Liceu”. A outra cabeça, provavelmente tenha sido jogada em algum rio.
E Augusto Meyer conclui a sua narrativa do episódio, com estas palavras: “Quanta gente anos a fio, subia e descia a “Ladeira do Liceu”, sem saber que no porão daquela casa, perto da antiga “Chefatura de Polícia”, estava escondida a cabeça, protesto mudo contra as mentiras da doutrinação política, contra as omissões conscientes ou inconscientes dos historiadores”.
E mais de uma coisa neste conto verdadeiro, dá o que pensar. Por exemplo: todos os que andaram às voltas com a fatal cabeça, começaram a desandar na vida.
O coronel passou ao ostracismo político; Júlio de Castilhos morreu na mesa de operação, ainda em pleno vigor; o gerente do jornal “A Federação” enlouqueceu; e os seus amigos ficaram marcando passo, dois para a frente e dois para trás.

O GUERRILHEIRO PAMPEANO
Outro livro que não pode deixar de ser lido é “Gumercindo Saraiva – O Guerrilheiro Pampeano”, do saudoso escritor Sejanes Dorneles, que tive a honra de conhecer e de ser seu amigo.
Essa obra é ainda mais completa, pois além do período da revolução federalista, traz outros detalhes da vida de Gumercindo, em especial da época em que o caudilho viveu em Santa Vitória do Palmar, terra adotiva do escritor.
Sandra Pesavento, noutro livrinho introdutório, “A revolução federalista”, sintetizou: “O certo é que de ambos os lados generalizou-se a prática da “degola”, forma de execução rápida e barata, uma vez que não requeria emprego de arma de fogo”.
A “Revolução Farroupilha” não tem graça, em número de mortos e de situações singulares, quando comparada com a de 1893. Disso resulta a incompreensão: por que não se faz feriado para comemorar esse momento maior das nossas façanhas? Por que não fazemos mais filmes, minisséries e poemas sobre isso?
Na sua palestra, Knierim mostrou com imagens como a “dança do facão”, parte do sagrado folclore gauchesco, foi adaptada por Paixão Cortes com base nas informações da “Negra Paim” sobre o “maculelê” dos escravos.
(Continua na próxima edição – Pesquisa: Nilo Dias)