DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “HERÓIS”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Não é de hoje que se ouve:“Na hora da necessidade surge o homem certo”. Neste tempo de emergência em que vivemos é que se procura desesperadamente por heróis, e se os encontra.
O famoso teatrólogo alemão Bertolt Brecht escreveu:“Infeliz é a nação que busca por heróis”. Ambíguo, não é mesmo?Sim, porque também nos acostumamos a lamentar a pouca grandeza dos políticos de plantão, das celebridades pop – jogadores, atrizes, pseudo atrizes, e por aí vai.
Uma escritora inglesa chamada Lucy Hughes – Hallet fala que a veneração exagerada por um indivíduo excepcional representa uma tentaçãoe permite àqueles que veneram eximir-se de responsabilidades. Tais pessoas procuram no grande homem a salvação ou a realização daquilo que elas próprias deveriam estar em busca. Refuto tais heróis.
Heróis para mim são indivíduos de carne e osso, sem aura, enfrentando a vida mesmo que ela seja insana em sua crueldade. Nestes 27 anos pós formatura, convivi com vários heróis anônimos, imensos em sua dignidade.
O que dizer da técnica de enfermagem que trabalhava no berçário do hospital onde eu estava fazendo minha graduação? Ela estava já para se aposentar, cabelos brancos, pegava dois ônibus e ia trabalhar no berçário. Lá, era rainha. Nunca vi tanta dedicação e cuidados com os recém nascidos! Parecia uma fada cada vez que pegava um bebê e este instantaneamente parava de chorar. Pois durante o período obrigatório que eu deveria passar ali vi um drama de perto. Um bebê tinha sido abandonado pela família, era mal formado. Parecia ser algo como a “Síndrome de Proteus”, doença congênita que dá ao infeliz que acomete, uma aparência monstruosa. Em 1980 fizeram um filme maravilhoso sobre o assunto:“O Homem Elefante”.Tocante e triste, um clássico filmado em preto e branco. O diretor David Lynch extraiu dos seus atores grandes interpretações.
Pois o pobre menininho do meu hospital escola foi deixado no berçário para nunca mais ser resgatado. Havia uma norma que depois de determinada idade os bebês teriam que ir para a ala pediátrica. A boa funcionária se desesperou:“Ninguém vai saber alimentá-lo, ele vai se afogar”. Se do queixo para baixo era perfeito com o corpinho bem formado e rosado, o rosto era uma aberração. Como um desenho infantil borrado, a boca era um rasgo. No lugar de um olho outro rasgo, o olho restante fitava o absurdo da sua existência permanentemente arregalado, a cabeça era igual ao filme, enorme e protuberante.
A técnica correu atrás de uma solução, iria adotá-lo e o levaria consigo. Mas nem tudo correu como planejado, a burocracia do hospital ganhou a corrida contra a burocracia da adoção judicial, e o bebezão foi para a ala pediátrica. Sem os cuidados que a mãe substituta lhe dedicava, ele realmente se afogou em leite, por causa da boca disforme, ou das mil mal formações. Ao chegar bem cedo para trabalhar ela passava antes para ver o seu quase filho, mas a criança não sobreviveu muito tempo. O hospital continuou sua rotina, mas aquela mulher que já era quase mãe novamente aos 60 e poucos anos acusou o golpe, vergada, pediu as contas e foi para casa cuidar das feridas da alma.
Heróis são sim quem três vezes na semana deita numa cadeira para ficar quatro horas sendo dialisado, todos são super heróis. E em muitas ocasiões o destino, ou Deus, a força criadora, o Todo Poderoso, seja lá como queiram chamar, gira a roda da vida mais rápido.
Eu vi, e continuo me maravilhando com a mudança de vida que o sortudo da vez tem em ser o escolhido para um transplante renal. Neste mês de maio de 2017 comemoramos o transplante número 50 que é feito por intermédio da Clínica de Hemodiálise, já é um número significativo.
Pois ajudei também ao encaminhar pacientes para transplante hepático. Sempre é comovente, arrebatador, é alguém voltando a ser livre, independente, dono da sua vida.
Para mim heróis são aqueles que se superam acima das expectativas comuns, ou por sua garra, ou para doar-se incondicionalmente ao próximo.

Nota: O Centro de Hemodiálise de São Gabriel informa a todos que pessoas que se passam por “ colaboradores “ do serviço estão ligando para pedir contribuições via telefone, fiquem atentos porque estas pessoas não foram autorizadas a isso.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “O AMOR INFINITO”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Os relatos são surpreendentes, mas registros da antiga Pérsia já falavam no câncer de mama. Atosha era uma mulher esplêndida, casada com o imperador. Admirada com o desconhecido caroço que crescia no seio que apalpava, ela se amedrontou com o que poderia ser. Mulher prática, chamou um escravo grego e entregou-lhe uma espada para que lhe extirpasse toda a mama. Ele teria uma chance: caso ela sobrevivesse ele também sobreviveria, senão, a espada teria outro fim, no caso o pescoço do infeliz.
Há mais de 3000 anos aquela mulher altiva já sabia que tinha que fazer algo, caso quisesse sobreviver. E assim, ao longo da dança do universo, há a procura incessante pela cura do câncer, nesse caso o da mama, que tantas mulheres acomete, e tanta dor proporciona às famílias.
Ainda no final do século XIX e início do XX as cirurgias mutilavam tanto quanto na antiguidade. Desde há muito os médicos basearam sua vida e seus estudos em tentar entender a formação do câncer, das células cancerosas, e cada vez mais ter domínio sobre esta doença.
Recentemente uma mulher linda, no auge do sucesso, com uma família numerosa, compreendeu que, tendo herdado os genes da mãe cuja família tinha uma alta incidência do mesmo câncer e que morrera do de mama há algum tempo, também poderia padecer da mesma doença.
Ela então fez um detalhado e criterioso exame, chamado de mapeamento genético. Na verdade é um estudo para saber se determinada pessoa tem algum gene compatível com alguma doença de origem familiar. Sendo assim tomou uma decisão radical, e polêmica, de tirar as mamas, e expôs isso ao mundo. Por ser mãe, acreditou que seu compromisso maior não era com sua beleza, e sim com seus filhos pequenos, que precisavam dela para seguirem seu caminho, sendo amados e amparados.
Ao lembrar do longo sofrimento da sua mãe ela fez o que o escritor português Domingos Amaral descreve muito bem: “É uma forma suprema de amor, de amor de mãe e de amor à mãe”.
Ao cortar pela raiz tanta dor, dando possibilidade de que seus filhos não a vissem doente, Angelina Jolie transformou-se numa mulher maior que ela mesma.
Avesso à polêmicas, com seu perfil discreto de sempre, Dr. Sérgio Camargo tomou inúmeras decisões, uma delas foi criar e desenvolver uma técnica para histerectomia, salvando vidas de mulheres que também são afligidas por outra patologia, o câncer de útero. Como grande ser humano que é, sendo capaz de pequenos gestos de grandeza ímpar.
Uma paciente extremamente querida dentro da Santa Casa foi diagnosticada, como milhões de mulheres, com câncer de mama. Angustiada e amedrontada pela patologia, teria que fazer um procedimento em Porto Alegre. Era um entrave quase intransponível, o pânico de cidade grande aliado ao estigma da doença travava o tratamento.
Dr. Camargo foi informado, e se apresentou como voluntário na rede de amigos que torciam para a recuperação da paciente. Quando esta foi finalmente convencida a ir à Porto Alegre, ele tomou uma decisão que me faz admirá-lo ainda mais como homem, e médico. Cancelou seus compromissos para ficar de plantão na portaria do hospital ao qual se dirigia a paciente. Desarmada pela demonstração de atenção ao ver um amigo lhe estender a mão vigorosamente, a partir dali o tratamento foi mais leve, o tempo correu mais rápido, e a cura chegou.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “DARWIN E NÓS”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Desde criança tenho uma lista de grandes da história, pessoas que influenciaram a humanidade a ser melhor. Homens e mulheres que por suas ideias modificaram o pensamento, nos trouxeram para mais perto do que seria a verdadeira civilização.
Nessa época ganhei do meu pai duas coleções que me fizeram viajar pela história, “ Grandes Vultos “, tudo ilustrado, que li nas férias da campanha, e a gigantesca “ História Geral das Civilizações “, bem este não tive fôlego, confesso. Meu pai dizia sempre que “ livro não tinha preço “, genial ouvir isso de um pai não é mesmo ?
Falemos então dos gregos, que foram os primeiros da minha lista, todos eles.Pulando de lá para cá na linha do tempo, fui pescando alguns nomes que me fizeram parar e admirar o tanto que ajudaram, nessa jornada que a humanidade trava neste pequeno planeta azul chamado Terra.
Charles Darwin foi um deles, inglês rico e bem nascido, andou na juventude até pelo nosso Brasil, a coletar espécimes para suas pesquisas. Ele ficou embevecido com a exuberante natureza intocada ainda pelo progresso, isto no final do I Império. Esta coleta de dados serviu para elaborar a teoria evolucionista. Entre outras coisas esta teoria explica como os diferentes animais podem ir se adaptando, aprimorando técnicas para a sua melhor sobrevivência.
Quando Darwin, já no final da vida, enfrentou o clero no seu país de origem, e relata que nós humanos compartilhamos um ancestral comum com os macacos, foi um escândalo.
Dia destes eu estava assistindo um documentário da NationalGeographic, era sobre os diferentes macacos da África. Lá existem, de um lado do imenso rioOkawango que corta o continente, os gorilas e chimpanzés; na outra margem, os bonobos.
Os gorilas são macacos muito grandes, nenhum outro macaco mexe com eles. Os chimpanzés são um espetáculo a parte, tal é a sua inteligência. Os chimpanzés são comandados por um macho alfa, só ele tem direito a procriar com as fêmeas. Ao seu redor há outros machos que o servem, e que um dia competirão para tomar o seu lugar, e assim poder pegar todas as fêmeas do harém.Enquanto isso esses machos são submissos, mas podem bater nas fêmeas se o macho líder assim ordenar.
Já os bonobos, que não tem a competição territorial dos gorilas, e ficam na outra margem do rio, separados também dos chimpanzés, são comandados por uma matriarca.
E olhem a diferença. Não há brigas! Todos vivem juntos, se alimentam juntos, criam os filhos juntos. Agora pasmem, se há desentendimentos as fêmeas rapidamente tomam a iniciativa, acarinham o irritado de plantão e copulam, todo o bando encontra no sexo uma válvula de escape para o stress da vida diária.
Nossa civilização avança, mas muitas vezes também dá sinais de retrocessos que beiram a escuridão de outros tempos, tempos primevos, onde o mais forte usava a borduna para se fazer ouvir, e os outros o seguiam.
É inadmissível que homens que se dizem homens usem da força física contra a mulher, não para medir forças com outros homens, mas para se fazer forte perante a figura da mulher, e assim serem a voz autoritária, e é a mesma que também usa de violência contra a criança. Pobres crianças que muitas vezes não tem um pai para dizer: “ livro não tem preço “. Carinho e dedicação também não.
A sociedade como um todo tem que agir, as mulheres já não são só donas de casa, e por serem economicamente ativas querem voz e espaço, que este espaço seja também delas.
E sejamos mais bonobos que chimpanzés.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “OOOO FERNANDO!”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Nasceu pobre, melhor dizendo, miserável, filho de um casal de rancheiros em uma rica propriedade rural, na década de 1930. Num campo que era lindeiro ao Cunhatay, onde ainda fica a casa dos meus avós.
O pai, chamado Sebastião, sobrenome desconhecido, era um pobre coitado, nem o título de peão tinha, trabalhava para obter sustento dentro do campo dos ricos fazendeiros, ajudava na lida, uma horta rudimentar provia a comida. E era desastrado, conseguiu se enroscar num arame farpado, ficou com uma fístula na traquéia, se bebia muito chimarrão, saia para fora o excesso, como se fosse uma traqueostomia antiga jorrando o líquido verde pescoço abaixo.
A mãe parecia uma índia, a Comadre Carmen, ficava nas cozinhas alheias ajudando quando em algum lugar havia festa, para poder levar as sobras para casa. Já vergada pelo trabalho, miséria e a filharada.
Fernando era mais uma boca para alimentar, um de tantos filhos. Haviam mais de doze, todos com o traço dos primeiros povoadores destas terras.
Em algum momento da adolescência ele teve um surto esquizofrênico, via santos que lhe falavam, vozes que lhe despertavam hora calma, hora ira, e sempre seria assim dali por diante.
A esquizofrenia se manifesta geralmente neste período em que há a transformação da infância à vida adulta, e como relatado na literatura médica a predisposição é familiar. Dos vários irmãos do Fernando eu conheci dois deles. O Curuca esquizofrênico e alcóolatra, e Marieta que tinha um enorme mioma uterino, durante anos manteve a enorme barriga que dizia ser uma gravidez.
Dos santos de Fernando, São Sebastião era o mais importante, talvez por ter o nome do pai, por quem não tinha afeto algum.
O improvável, mas que parecia ser a melhor explicação, era o sofrimento pelo qual passara o santo, morto em martírio. Na Roma antiga haviam descoberto que um oficial centurião chamado Sebastião era cristão, e foi então morto crivado de flechas.
Contava-se em família que os pais de Fernando foram desalojados pelos estancieiros, quando não havia mais como o velho Sebastião trabalhar. Que fossem morrer à míngua em outro lugar, fora dos domínios da rica família. Era uma época que não se ouviam falar nas leis que Getúlio Vargas implementaria para os trabalhadores. Para o homem do campo só valia a palavra dos donos da terra.
Minha avó que reconhecia a força de trabalho daquela gente se revoltou, levava comida e roupas para o rigoroso inverno na região, no casebre de taipa, na beira de estrada.
O Fernando foi chamado e feito ajudante para tudo o que fosse pesado para minha avó fazer em casa. Com uma força fora do normal, cortava lenha e trazia de carrinho de mão, enchia a pipa de água no arroio, e a deixava embaixo do parreiral, a água era para ser consumida na cozinha.
De manhã pendurava os pelegos das ovelhas mortas no estaqueador e o charque no varal bem alto, para não serem roubados pelos cachorros do meu avô Idelmar, e recolhendo antes de começar o sereno da noite. Tudo em meio às imprecações que soltava, a cada meia dúzia de palavras, contra os santos que o perseguiam e atormentavam.
Não gostava da cama e do quarto destinado a ele, transformara tudo em um sacrário cheio de imagens e fotos de santos, velas eram acesas dia e noite, seu único pedido quando minha avó ia à cidade eram fósforos e velas. Ele de noite atirava uns pelegos e ficava deitado na área que separava a casa em duas, guardando o sono dos patrões.
Tinha uma obediência absoluta pela minha avó, que só não podia controlá-lo em noite de trovoadas, quando ele ia até a porta da cozinha, que se dividia ao meio e de frente para o galpão, de lá proferia impropérios aos céus, de facão em punho, mas sem se atrever a sair ao relento, apavorado e feroz. Imagem impressionante para mim, que não chegara ainda aos dez anos, e vi várias vezes ele com olhar desvairado, com medo do temporal.
Ganhou um cachorro que colocou o nome de Fiango, e se Fernando era uma sombra nos calcanhares da vó Orphelina, Fiango era a sombra da sombra.
Achou por bem colocar uns brincos, minha avó não lhe deu ouvidos, e ele apareceu com as orelhas furadas com o cravador de colocar as plaquetas na orelha dos terneiros, e no lugar os brincos desejados, arame. Vó Orphelina não teve outra saída a não ser providenciar as argolas.
Não calçava sapatos jamais, e no inverno era difícil usar uma camisa, parecia um Urtigão das histórias em quadrinhos, só que sem barba e careca. Minha mãe uma vez lhe deu um blusão de lã feito por ela, não usou, mas guardava com grande respeito.
Vez por outra a avó vinha com sua Belina até Bagé, trazia o Fernando para abrir as tantas porteiras, com a promessa de passar na Catedral e na Santa Casa, para ele admirar as estátuas de São Sebastião. Caso contrário ele fazia a pé o percurso só para cumprir sua sina de venerar o santo.
Se não chovia, e o pasto estava seco sempre havia um gaiato a pedir, “ ôoo Fernando dá um jeito nos teus santos “, todos eram colocados de molho n’água, de ponta cabeça, só saindo daquela posição, imprópria para uma santa imagem, caso caísse um dilúvio.
Numa noite, quando meu avô já estava muito doente em Porto Alegre, na hora da minha avó servir a janta à peãozada, Fernando profetizou que todos ali morreriam em breve, e deu a ordem cronológica, iniciando por ele, mas dando mais 10 anos de vida à minha avó, todos troçaram dele. Na manhã seguinte, passou com as achas de lenha para o fogão fumegante, a vó no galpão lhe pediu erva para o chimarrão quando voltasse, ele se demorou e ela foi atrás.
Pela primeira vez o encontrou deitado, tinha ido para a cama, sereno, e jazia morto. Minha vó, que era muito cética, olhou triste e ao mesmo tempo impressionada, a vela que estava sempre acesa aos pés da imagem do santo de devoção, pela primeira vez se apagara.
A roda da vida, para espanto de toda a família, girou numa grande velocidade, depois dele, meu avô, o capataz, e o jovem peão, todos partiram em apenas seis meses. Minha avó, cumprindo o inexplicável vaticínio, veio a falecer 10 anos depois.
“ No creo em brujas, pero …”

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “MUSAS E DIVAS NO BIANCHETTI”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Musas, hoje o termo é bastante popular, vem dos antigos mitos gregos, eram nove filhas de Zeus, que inspiravam as artes, todas lindas. Desta palavra se originou o termo Museu, onde ficam guardadas as representações máximas das artes.
Os gregos, no alvorecer da civilização humana, entenderam o que era belo, e como representá-lo com perfeição.
Ainda hoje ao se deparar com a estátua da “ Vênus de Milo “, toda em mármore, guardada no Louvre em Paris, o que vemos é uma linda mulher a nossa frente, e se crê na inteligência e perícia daquele povo antigo, por tirar da pedra nua tal obra de arte.
A estátua reina no museu em Paris. Numa sala cercada por paredes em pórfiro rosa, contrastando com o belo mármore esculpido. Ela desde que foi desenterrada, após séculos de esquecimento, virou ídolo pop, não sai de moda, e parece que reuniu há 3000 mil anos o que era a perfeição no corpo feminino num bloco de mármore.
Uma vez ouvi que suas medidas eram adotadas no passado recente como padrão para os concursos de miss. E por ter algumas polegadas a mais, a Marta Rocha perdeu o título de mais bela mulher do mundo. Que injustiça! A baiana Marta ainda é hoje uma mulher que se sobressai a todas as mulheres do seu tempo.
Na minha infância passada dentro do Restaurante Esquina Bianchetti, em Bagé, assistia ao desfilar das mulheres mais bonitas da cidade. A hora do recreio do Colégio Estadual era o ápice. Os amigos do meu pai apareciam todos, para assistir a movimentação.
Por ser um destino popular na cidade não faltavam inúmeros casos anedóticos de tipos populares em busca de uma comida boa, e distração. Muitas vezes aconteciam surpresas.
De passagem por Bagé a Dina Sfat foi uma frequentadora discreta numa noite de verão. Mas anos antes o rebuliço se formou com a entrada da então deslumbrante Maria de La Costa. Ela, logo após o horário do almoço, chegou com o marido Sandro Poloni e cercada de seus cachorrinhos poddle.
Atriz que fazia imenso sucesso no teatro, surgiu do nada, alta magra, com uma voz rascante chamou o meu pai e disparou com toda malemolência de uma diva: – “Seu Sirio, me disseram que aqui se come a melhor massa da cidade! Sou gaúcha de Flores da Cunha, adoro churrasco, mas hoje quero massa!”
Meu pai destacou dois garçons para servi-la, e um terceiro para correr atrás da cachorrada, que a estas alturas fazia a festa no salão.
Dizem que o prato foi uma massa verde que minha avó havia mandado preparar para uso exclusivo da nossa família, e que foi servido com molho. Por anos se comeu esse prato recordando a Maria de La Costa.
Haviam também algumas musas anônimas, e outras nem tanto. Uma delas foi apelidada de “Denorex“ por um dos grandes amigos do pai. Este, um italiano bonachão e namorador, ficara impressionado com a beleza de uma mulher que estava de costas para ele, mas quando ela se virou o amigo do meu pai viu a beleza desaparecer em um instante, era feia. Nessa época era vinculada na televisão a propaganda do xampu “Denorex”, que dizia no bordão “parece, mas não é”, quem tem mais de quarenta deve lembrar.
Mas impagável mesmo era uma jovem estudante da antiga FAT – Fumba, hoje Urcamp.
Meu pai permitia que os estudantes de outras cidades fizessem vales para as refeições, no final do mês as famílias mandavam dinheiro e eles acertavam as contas. Posso dizer que, ao vender fiado para estes jovens de então, o meu pai nunca levava calote, e até hoje vez por outra aqui mesmo em São Gabriel, encontro alguns que foram beneficiados por isto, e expressam sua alegria e gratidão para com ele.
Pois, voltando à jovem estudante, ela tinha uns 17 anos recém feitos, linda, rosto travesso, entrava no salão no momento do clímax noturno, ia até o meio do salão e como tivesse esquecido de algo fazia um muxoxo e colocava a mão na testa, dando um pivô.
Havia um antigo orelhão junto a porta de entrada, pois ela ia rápido até o telefone, discava apressada, e ficava a confabular como precisasse resolver assunto muito importante, enquanto fixava o olhar ao redor do salão. Minha mãe, em um estrado onde ficava o caixa, observava a tudo com agudeza e comentava divertida com a cena da jovem: – “A danada tá só flertando com a rapaziada do salão, o telefone continua enguiçado”.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “O CHORO DA ENFERMEIRA”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Muitas vezes ficamos de mãos atadas. É assim no dia a dia, no trabalho, no trato com as pessoas. Agora, ficar sem possibilidade de fazer algo mais por um jovem é desanimador, triste, e nos deixa com um gosto amargo na boca por dias.
Quando se chega para pegar o plantão na UTI, no primeiro momento já podemos avaliar se a noite vai ser tranquila, ou haverá o caos. Eu posso garantir que em algumas ocasiões a vontade é de voltar correndo para casa, tal é o nível de dificuldade que se avizinha, mas a responsabilidade é grande, então fica-se. Já vi muita coisa triste, nada supera ver a dor de uma mãe que perde um filho, e se for criança, presenciar a cena é um soco no estômago.
Lembro de uma infeliz mãe que tive que dar a notícia que a filha tinha partido para se tornar um anjo. Era finalzinho de plantão na UTI. Eu fui atender uma urgência no setor de pediatria. O lamento daquela mulher era tão grande que depois das providências tomadas e eu ter saído do local, se ouvia em qualquer setor do hospital aquele choro incomensurável, era um uivo, um lamento agudo e triste, e nada nem ninguém poderia abrandar. Por isso tiro o chapéu para os colegas que decidem ser pediatras.
No dia seguinte, cheguei em casa arrasado, sem me dar conta que já era o Dia da Criança, minha filha era pequena e tinha a mesma idade daquela menininha. Estava me esperando na porta sabendo que iria ganhar presente, a abracei demoradamente.
Outra vez foi pior, ao abrir a porta da UTI não vi ninguém no grande salão, deixei meus apetrechos pessoais em cima da mesa e fui avançando. No salão pequeno, onde ficam 3 leitos somente, estava o médico que iria me passar o plantão, completamente exausto, mais todo o staff da enfermagem reunido em silêncio. Gelei, uma tragédia se anunciava.
Era uma mocinha que tivera todas as complicações raríssimas num quadro agudo, o colega balançou a cabeça com ar de desânimo, ele tinha feito tudo. A paciente estava consciente, sem pressão audível, o nível de oxigenação ainda estava aceitável. Ao pegar o plantão a enfermeira chefe veio falar comigo. Era possível fazer algo mais para salvar aquela vida? Não naquela noite pensei, e nem com aquela jovem. Decidi que iríamos sedar a paciente e deixá-la em ventilação artificial, para que ela não soubesse o que estava acontecendo à sua volta, antever o seu fim seria devastador.
O procedimento nessas horas tem que funcionar em equipe, tudo bem azeitado para não haver corre-corre. O tubo endotraqueal que será implantado já tem que estar testado, a seringa com sedativo preparada e toda equipe a postos, há riscos de arritmia e parada cardíaca. Tudo funcionou bem, ela foi entubada como dizemos no hospital. Antes de fazer o procedimento fui com a voz mais segura dizer à paciente que iria fazer um remédio para ela dormir, “ é só o que eu quero, obrigada “.
Naquela noite a guerra já tinha sido decidida e toda a equipe sabia que seria derrotada, ao olhar para o lado vi que a enfermeira chorava, as técnicas de enfermagem choravam, uma tristeza só. E eu que sempre reclamo que as pessoas não sabem mais dizer obrigado fiquei mudo, esta tinha agradecido.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “IL MAESTRO”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Ler é fundamental, faz parte do que é considerado ser civilizado. Durante milênios o bicho homem vem evoluindo mas foram só nos últimos 6000 anos, com o poder de se expressar e registrar, que demos um salto no futuro. Só foi possível porque aprendemos a ler, e com isso a pensar em criar. Aí vieram as ciências, a engenharia, e as leis deram certa ordem à barbárie, tudo decorrente da palavra escrita.
Crer que a leitura é uma agente modificadora pode ser meio utópico. A sociedade evoluiu a galope criando tantas ferramentas, e permitem que haja muita distração. Pena que acaba tirando o tempo para parar e ler um bom livro, lamentável não é mesmo ?
E os professores ? Eles tem que lidar com uma realidade árida. Como motivar os jovens a um hábito que é solitário, que já deveria vir de casa? Vamos lá pais, sentem e abram um livro para seus pequeninos, quanto menores eles forem melhor será.
Ler para uma criança é uma experiência riquíssima. Lembro da minha filha com três anos ouvindo atentamente eu ler para ela “A Bela e a Fera”. Em dois tempos ela havia decorado todo o livro, e era fantástico depois ouvi-la recitar até com as pausas das acentuações, como se de fato lesse.
Nossa região tem uma história forte, guerras, revoluções, invasões, e esse Pampa, que inspira seus poetas a nos brindarem com músicas elaboradas.
Mas há uma pessoa que realmente merece destaque pelos anos, por sua dedicação à palavra. Não só em querer escrever, mas registrar nossa história para que não seja esquecida. Quanto de patrimônio cultural o “seu” Osório Santana Figueiredo deu para esta cidade? Confesso que o admiro, e isso que tenho pouco tempo de São Gabriel.
De uma feita me convidaram para uma mesa redonda na Câmara de Vereadores onde algumas pessoas relatariam o que os tocava na obra do nosso principal historiador. Era à noite, já tinha concluído minha jornada diária e lá fui eu.
E contei uma passagem com a obra do Osório. Minha família pelo lado materno descende de um espanhol aventureiro que deu com os costados pelo Brasil na primeira metade do século XIX, Don José Guasque.
Temos encontros familiares e até um livro foi lançado numa das nossas Guasqueadas, intitulado “Don José Guasque da Espanha dos Bourbon ao Brasil Imperial e República Farroupilha “, da folclorista Elma Sant’Ana.
Na coleta de dados nos arquivos da Espanha, eu e os primos, encarregados de fazer o inventário dos livros que o próprio José Guasque escrevera, estancávamos. Nós esbarrávamos muitas vezes na burocracia das instituições que armazenavam tais livros. Nós também queríamos os seus artigos em jornais da época, uma das suas múltiplas profissões era jornalista.
Nossos emails pareciam carecer de algo, e olha que me esforçava no meu portunhol. Tive uma ideia, comecei por enviar de presente para a prestigiadíssima Biblioteca Nacional da Espanha um exemplar do livro “Dom Felix de Azara“, do Osório Figueiredo. E depois para as outras instuições que armazenam a vasta memória da Espanha como nação. Justo este livro o “seu “ Osório fez sobre o espanhol que veio para estas paragens, e é uma figura histórica sumamente importante na Espanha.
Bom, todos, repito, todos os dados sobre meu ancestral José Guasque começaram a vir aos borbotões, os que eu pedi pelo menos.
O Alzheimer, com o envelhecimento cada vez maior da população, assombra a dita terceira idade. Há estudos comprovando que o hábito da leitura retarda o aparecimento da doença, por exemplo, caso um paciente tenha predisposição a ter Alzheimer aos 80, se ele lê e tem uma vida saudável, os sintomas se manifestarão, caso isso aconteça, aos 90 anos. E neste meio tempo o indivíduo pode perecer de qualquer outra patologia.
O “seu “ Osório, como muitos de nós nos acostumamos a chamá-lo, é um assombro com sua memória prodigiosa e incansável dedicação às letras.
Que os anos não passam para ele, todo mundo sabe. E para usar uma palavra que lhe é digna em qualquer idioma, vai em italiano, ele é “Il Maestro“.

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