DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: O GAÚCHO DE ALEGRETE.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Recém chegado em Porto Alegre fui atrás da parentada para que me ajudassem com todos os perrengues que um jovem estudante passa num grande centro, e o pior deles me parecia ser, ter avalista para alugar um apartamento. Mas o meu tio Ary era o cara !
Era um velhote fino, parecia um cavalheiro inglês tal era a elegância com que se vestia, com poucas posses mas cheio de estilo. Loja só a “ Homem Moda Atual “, onde se vestiam os senhores acima dos sessenta. Cabelo branco penteado para trás e o bigode também muito bem cuidado, com um leve retorcido nas pontas. Até garoto propaganda do GBOEX ele fora. Aparecer na televisão, isso lá pelos anos 70 era um acontecimento. Então era mais ou menos assim, uma sala de reuniões, o meu tio sentava à cabeceira, levantava com veemência e dizia: “ Conseguimos ! Atualizar e manter ! “ A família ficava embevecida com seu astro televisivo.
Caso o cutucassem com vara curta, virava uma fera, baixava o gaúcho que sempre prezava ser e podiam sair da frente, que não temia nada.
Minha tia era uma graça de pessoa, delicada, frágil. Muitas vezes quase infartava com as peripécias do marido. Certa vez foram à rua Lima e Silva visitarem uma irmã dela. Domingo, logo após o almoço, ele empertigado sentiu uma mão no bolso da calça. Pensando ser um amigo lhe fazendo troça, levou a mãozarrona e deu de cara com um assaltante. Com um braço preso o pilantra da capital começou a sentir que não devia ter se metido com aquele casal que parecia ser uma presa fácil. Com o ladrão ainda agarrado o tio sacou uma faca de prata de dentro do seu casaco de tweed, e ia sangrá-lo se o infeliz não escapasse a trote. Vociferando o meu tio gritava a pleno: – “Vem cá, vem que vou te dar o dinheiro que está aqui na minha mão, vem…” Minha tia chegou no destino pedindo dois sustrates e um copo d’água, e que voltaria de táxi para casa.
Doutra feita precisei novamente de avalista. Necessitava de roupas novas para o inverno que chegava, o Iguatemi tinha inaugurado há pouco tempo. O novo empreendimento era um local que os funcionários se achavam, olhavam o estudante com ar de superioridade. As portas do shopping ainda estavam cerradas, muitas mulheres entusiasmadas se aglomeravam para entrar assim que abrissem, e o tio começou: – “ Mas até parece um rebanho de ovelhas para entrar no brete “, falando suficientemente alto para que fosse ouvido.
Fomos logo na Casa José Silva, onde eu tinha escolhido previamente o que iria comprar, e na sobreloja para fazer o cadastro. A funcionária não teve tato algum, meio que largou a ficha para que se preenchesse, pois rápido o tio pegou, e na mesma forma que havia sido entregue foi imediatamente devolvida: – “Minha filha sou analfabeto de pai e mãe, preencha por favor “, e cruzou os braços. A funcionária emburrada não teve opção a não ser iniciar o questionário completando toda a ficha. Detalhe, de analfabeto ele não tinha nada.
Com um afeto enorme os tios me mandavam que ligasse toda a semana e me convidavam para visitá-los, e lá ia eu atravessar a Oswaldo Aranha para pegar o rumo do apartamento na Jacintho Gomes, rua pacata onde moravam. Com a entrada na faculdade as visitas foram se espaçando e depois de formado me mudei para Pelotas, para iniciar a Residência Médica.
A tia estava doente, um câncer de mama a debilitava cada vez mais, e logo ele adoeceu. Foi levado para a PUC e fiquei sabendo pelos primos que ele dizia para todos os estudantes que tinha um filho médico formado ali. Não aguentei e fui vê-lo no primeiro final de semana livre.
Era outro homem, pálido, cabelos revoltos, ficou eufórico com minha visita e começou a chamar os doutorandos e residentes que estavam de plantão. Eu conhecia a todos porque me formara um ano antes. Eles disseram: – “Que bom que vieste, ele falava sem parar que tinha um filho médico”. Tendo alta, os sintomas de decrepitude vieram a galope, foi diagnosticado com Alzheimer. Era demais ver sua esposa “Lidinha” morrer lentamente.
Dr. Alois Alzheimer em 1906 descreveu o primeiro caso da doença que leva seu nome. Segundo a literatura médica, é: “ doença que se apresenta como demência, ou perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais. Quando diagnosticada no início, é possível retardar o seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas, garantindo melhor qualidade de vida ao paciente e à família. “
Com a morte da esposa minha prima mais velha levou-o de volta ao pago, assim teria os cuidados da família na sua adorada Alegrete. A vida pode ser bem dura, mas contando com a presença firme da família isso pode ser abrandado. Vez por outra ligava para saber dele. Passava macambuzio enrolado num poncho de lã, nem de perto lembrava o cavalheiro vestido de tweed. Veio a falecer, mas deixou uma lembrança boa. Seu espírito exuberante que enfrentava ladrão de faca em punho e olhar firme, encarava o que viesse pela frente, como se dissesse novamente para as câmeras de televisão: “ Conseguimos ! Atualizar e manter ! “

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “RECORDAÇÕES DA MINHA ESQUINA”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Dia destes estava de aniversário, mais um ano, e fui surpreendido por um presente do acaso. Era a carta de um leitor inusitado, por ser de fora do nosso Rio Grande, não imaginava ser lido além da nossa região.
Neste espaço onde eu comecei como colaborador, acho importante relatar fatos, tentar esclarecer dúvidas e dar uma versão do que acontece do lado de dentro de uma instituição hospitalar, isso humaniza, quebra barreiras, faz com que as pessoas se identifiquem e torna a vida mais tranquila, dos pacientes e seus familiares, mas também do pessoal que trabalha em saúde.
Já aconteceu de um pai que perdera sua filha amada se inserir tanto dentro de uma crônica, em que toco no tema do falecimento de filho e na dor que esse evento gera numa família, que ao estar passando por este horror que o destino lhe impôs, me procurou. Ele entrou contido no meu consultório só para extravasar seu pedido de ajuda. Me segurei na cadeira atordoado tentando desobstruir os caminhos que o levavam ao mais completo desespero. O ser humano é um forte.Ao estar náufrago num oceano de lamento ele reconstruiu sua vida e aos poucos foi colando os pedaços de seu coração de pai. Me conforta que o ajudei a superar o primeiro estágio do luto, aliviando, na medida do possível, a dor lancinante que o tomava por completo.
Mas este espaço é também para o saudosismo mais desbragado. Sou filho orgulhoso de dono de restaurante. Mal comparando tem gente que para se sentir bem vai num templo, sabem qual é o melhor lugar para eu me sentir bem? Um restaurante. Há alguns detalhes: nada de lugarzinhos quietos e intimistas, tem que ter gente, conversa no ar, e comida boa, claro.
O “Esquina Bianchetti“ , em Bagé, era assim. Vejam o que me diz este leitor, na época um jovem trabalhador de um dos mais renomados bancos privados do Brasil. Ele que vinha de avião periodicamente de São Paulo até Porto Alegre, e depois de ônibus até Bagé, lá pelos anos 70. Diz ele: -“Me sinto bem ao lembrar o prazer com o qual frequentei aquele ambiente familiar e amigo, pela qualidade da comida servida e pela fartura de oportunidades de uma conversa interessante. Ali, naquela época, aprendi como era bom estar longe, para se sentir em casa. “
Mais adiante complementa:
“Me identifiquei com o texto, primeiro porque essa é uma parte valiosa da minha vida. Em segundo, porque me faz lembrar que um dos sentidos importantes da vida é poder guardar e preservar o que nos faz bem“. Brilhante na sua sensibilidade, captou o que era a atmosfera da casa, e de mais a mais, acredita no que eu acredito.
Hoje um profissional de sucesso, e com certeza super ocupado, encontrou tempo para me escrever relatando seu sentimento de nostalgia. Ganhei o dia.Posso dizer que se ainda há homens assim em postos chave, este Brasil vai adiante. Não posso prever quando isto vai acontecer, mas um dia desencanta e acontece.
E dando vazão à esta nostalgia toda, vamos reproduzir o que pode ter sido a refeição do nosso anônimo viajante paulista pela minha Bagé nos idos de 1970.
Os invernos de Bagé naquela época eram de um frio absurdo. Meus primos paulistas até hoje lembram das temporadas que passavam nas férias para visitar nossa avó e do frio constante que sentiam.
Então para estes viajantes incautos o meu pai sempre mandava que os garçons sugerissem uma taça de consumê (do francês consommé), como entrada. Vinha numa tigela específica para este fim, um ovo praticamente cru ao fundo, e caldo de frango quente, que estava sempre a borbulhar no fogão à lenha. Acompanhava um pãozinho.
Depois, na certa, era a especialidade da casa: o spaghetti do Bianchetti. Uma maravilha que até hoje minha adorável tia Ruth é mestra. Com 700 g de uma boa farinha de trigo peneirada se junta nove ovos da galinha caipira, faz-se a massa, passa no cilindro, e voilá, tem-se uma delicía. Junto ao molho de carne que também borbulhava no mesmo fogão, e mais um dos vinhos chilenos que se costumava oferecer no restaurante o viajante ia ao céu do prazer alimentar e voltava para a terra, mais sábio, mais disposto, pronto para enfrentar tudo o que a vida lhe oferecesse.
E vocês leitores anônimos ou não, dão a este cronista mais entusiasmo e satisfação ao escrever o que acalenta a alma nossa de cada dia, as lembranças, podendo ser um lugar que a saudade transformou num paraíso intocado, ou até numa superação de um pai em momento de dor.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “A MULHER DA SÍRIA E O MUNDO EM CONFLITO”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Não concebo pais viajando e deixando os filhos para trás. Quem faz isso tem lá suas razões, mas não é para mim, nem para minha família. Vamos todos embolados uns aos outros, ou ninguém sai.
Quando minha filhota pediu uma viagem ao invés de uma festa de aniversário, mais que concordei com a escolha. Coisa boa é pegar pela mão e mostrar o mundo à ela e ao irmão. Essa é uma experiência que vale à pena repetir,tal é a gama de sentimentos despertados, seja pela curiosidade adolescente dos dois,ou até pelo encanto da família inteira com o que há de lindo para ver. E, mais do que tudo, é enxergar ao vivo a dinâmica deste planeta em ebulição, sair da nossa pacata vida e sentir o que está acontecendo numa grande capital.Se apalpa riqueza, desenvolvimento, tecnologia de ponta em prol do ser humano. Na contra mão há abandono e indiferença pelo desabrigado, pelo que não professa a mesma fé, não é da mesma etnia, aqueleque chega ao estrangeiro de mãos abanando, com nada mais do que a roupa do corpo, quem são eles? Os refugiados assolados pelas guerras em seus países.
Caminhando e se divertindo em família parei desolado com o que parecia ser uma versão atualizada da “Pietá”, parecia uma Maria ajoelhada diante do filho morto na cruz.Uma mulher idosa, de roupa preta, com um manto negro que só deixava ver seu rosto, estendia a mão para pedir uma esmola, agarrada a um coelhinho de verdade, o que parecia ser seu tesouro. Ela era da Síria, fugida da guerra cruel na sua deformidade plena, deveria ter uma família que certamente havia sido despedaçada. Porque qual filho deixaria uma pobre velhinha esmolar numa noite gélida? Ela estava ali para defender uma parca refeição.
Indiferentes passavam às dezenas, alguns soltavam algumas moedas, me condoí em ver tanta dor ali palpável enquanto estava me divertindo. E ao soltar também algumas moedas disse a única coisa que sei em árabe:
– “Salam aleikum”( A paz de Deus esteja com você ). Num fugaz momento aquela paupérrima mulher se sentiu novamente confortada, seu olhar era impressionante, refletia todo horror e desatino que presenciara, e me irradiou um agradecimento difícil de descrever. Pelo tocante que era, seu olhar era num momentototalmente escuro, e num átimo se tornou claro chegando a rescender.
Prontamente ela me respondeu a saudação com:
– “Aleikumessalam” (Esteja ela com você também).
Pobre humanidade, o que fazer, para onde ir? Ora, só se olha para trás para aprender, temos que saber olhar é para frente!
Por isso conto aqui a importância de um fato que gostaria que fosse mais divulgado.
Uma jovem médica brasileira, e tomo seu nome com a reverência que uma grande mulher deve provocar, Dra. Denise Pedreira, desenvolveu uma cirurgia para a correção da “Mielomeningocele”.
Este é o tipo mais grave da “Espinha bífida”, defeito congênito que deixa o recém-nascido com graves sequelas para o resto da vida. Pois esta médica é uma das maiores especialistas mundiais de Medicina Fetal. Ela criou uma técnica revolucionária para operar o bebê dentro do útero da mãe e corrigir totalmente a lesão. Este grave problema fatalmente castiga uma criança para o resto da existência, seu destino será traçado pilotando uma cadeira de rodas.
E como nem tudo são sombras, esta médica conseguiu a proeza de unir dois lados em guerra, Israel e os palestinos. A Dra. Denise foi convidada por um médico israelense a fazer dois procedimentos aula em um hospital de Israel.
Uma das crianças era israelita, a outra palestina. O médico árabe que havia feito o diagnóstico não tinha como receber em seu pobre hospital tal empreitada, então foi também convidado, juntamente com seus auxiliares, para assistirem os dois procedimentos no lado israelense, rico e desenvolvido.
Se há esperança ainda presente no mundo, naquele dia o sol deve ter brilhado mais sobre a Cidade Santa, Jerusalém, irradiando o que há de melhor na raça humana, compaixão por uma criança doente, ou duas, ou todas …
A Dra. Denise começou o primeiro procedimento cirúrgico operando a mãe de Israel com seu bebê no útero, um sucesso. Logo após, a mãe da Palestina, que era o caso mais sério, começou a também ser operada. Neste meio tempo aconteceram as preces dos árabes que se retiraram para orar, sendo substituídos pelos colegas judeus.
Todos realizaram algo a mais pela civilização, se respeitaram, diria até que se amaram. Este é o mundo que eu quero para os meus filhos, e para os de vocês também, façamos a nossa parte.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “HERÓIS”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Não é de hoje que se ouve:“Na hora da necessidade surge o homem certo”. Neste tempo de emergência em que vivemos é que se procura desesperadamente por heróis, e se os encontra.
O famoso teatrólogo alemão Bertolt Brecht escreveu:“Infeliz é a nação que busca por heróis”. Ambíguo, não é mesmo?Sim, porque também nos acostumamos a lamentar a pouca grandeza dos políticos de plantão, das celebridades pop – jogadores, atrizes, pseudo atrizes, e por aí vai.
Uma escritora inglesa chamada Lucy Hughes – Hallet fala que a veneração exagerada por um indivíduo excepcional representa uma tentaçãoe permite àqueles que veneram eximir-se de responsabilidades. Tais pessoas procuram no grande homem a salvação ou a realização daquilo que elas próprias deveriam estar em busca. Refuto tais heróis.
Heróis para mim são indivíduos de carne e osso, sem aura, enfrentando a vida mesmo que ela seja insana em sua crueldade. Nestes 27 anos pós formatura, convivi com vários heróis anônimos, imensos em sua dignidade.
O que dizer da técnica de enfermagem que trabalhava no berçário do hospital onde eu estava fazendo minha graduação? Ela estava já para se aposentar, cabelos brancos, pegava dois ônibus e ia trabalhar no berçário. Lá, era rainha. Nunca vi tanta dedicação e cuidados com os recém nascidos! Parecia uma fada cada vez que pegava um bebê e este instantaneamente parava de chorar. Pois durante o período obrigatório que eu deveria passar ali vi um drama de perto. Um bebê tinha sido abandonado pela família, era mal formado. Parecia ser algo como a “Síndrome de Proteus”, doença congênita que dá ao infeliz que acomete, uma aparência monstruosa. Em 1980 fizeram um filme maravilhoso sobre o assunto:“O Homem Elefante”.Tocante e triste, um clássico filmado em preto e branco. O diretor David Lynch extraiu dos seus atores grandes interpretações.
Pois o pobre menininho do meu hospital escola foi deixado no berçário para nunca mais ser resgatado. Havia uma norma que depois de determinada idade os bebês teriam que ir para a ala pediátrica. A boa funcionária se desesperou:“Ninguém vai saber alimentá-lo, ele vai se afogar”. Se do queixo para baixo era perfeito com o corpinho bem formado e rosado, o rosto era uma aberração. Como um desenho infantil borrado, a boca era um rasgo. No lugar de um olho outro rasgo, o olho restante fitava o absurdo da sua existência permanentemente arregalado, a cabeça era igual ao filme, enorme e protuberante.
A técnica correu atrás de uma solução, iria adotá-lo e o levaria consigo. Mas nem tudo correu como planejado, a burocracia do hospital ganhou a corrida contra a burocracia da adoção judicial, e o bebezão foi para a ala pediátrica. Sem os cuidados que a mãe substituta lhe dedicava, ele realmente se afogou em leite, por causa da boca disforme, ou das mil mal formações. Ao chegar bem cedo para trabalhar ela passava antes para ver o seu quase filho, mas a criança não sobreviveu muito tempo. O hospital continuou sua rotina, mas aquela mulher que já era quase mãe novamente aos 60 e poucos anos acusou o golpe, vergada, pediu as contas e foi para casa cuidar das feridas da alma.
Heróis são sim quem três vezes na semana deita numa cadeira para ficar quatro horas sendo dialisado, todos são super heróis. E em muitas ocasiões o destino, ou Deus, a força criadora, o Todo Poderoso, seja lá como queiram chamar, gira a roda da vida mais rápido.
Eu vi, e continuo me maravilhando com a mudança de vida que o sortudo da vez tem em ser o escolhido para um transplante renal. Neste mês de maio de 2017 comemoramos o transplante número 50 que é feito por intermédio da Clínica de Hemodiálise, já é um número significativo.
Pois ajudei também ao encaminhar pacientes para transplante hepático. Sempre é comovente, arrebatador, é alguém voltando a ser livre, independente, dono da sua vida.
Para mim heróis são aqueles que se superam acima das expectativas comuns, ou por sua garra, ou para doar-se incondicionalmente ao próximo.

Nota: O Centro de Hemodiálise de São Gabriel informa a todos que pessoas que se passam por “ colaboradores “ do serviço estão ligando para pedir contribuições via telefone, fiquem atentos porque estas pessoas não foram autorizadas a isso.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “O AMOR INFINITO”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Os relatos são surpreendentes, mas registros da antiga Pérsia já falavam no câncer de mama. Atosha era uma mulher esplêndida, casada com o imperador. Admirada com o desconhecido caroço que crescia no seio que apalpava, ela se amedrontou com o que poderia ser. Mulher prática, chamou um escravo grego e entregou-lhe uma espada para que lhe extirpasse toda a mama. Ele teria uma chance: caso ela sobrevivesse ele também sobreviveria, senão, a espada teria outro fim, no caso o pescoço do infeliz.
Há mais de 3000 anos aquela mulher altiva já sabia que tinha que fazer algo, caso quisesse sobreviver. E assim, ao longo da dança do universo, há a procura incessante pela cura do câncer, nesse caso o da mama, que tantas mulheres acomete, e tanta dor proporciona às famílias.
Ainda no final do século XIX e início do XX as cirurgias mutilavam tanto quanto na antiguidade. Desde há muito os médicos basearam sua vida e seus estudos em tentar entender a formação do câncer, das células cancerosas, e cada vez mais ter domínio sobre esta doença.
Recentemente uma mulher linda, no auge do sucesso, com uma família numerosa, compreendeu que, tendo herdado os genes da mãe cuja família tinha uma alta incidência do mesmo câncer e que morrera do de mama há algum tempo, também poderia padecer da mesma doença.
Ela então fez um detalhado e criterioso exame, chamado de mapeamento genético. Na verdade é um estudo para saber se determinada pessoa tem algum gene compatível com alguma doença de origem familiar. Sendo assim tomou uma decisão radical, e polêmica, de tirar as mamas, e expôs isso ao mundo. Por ser mãe, acreditou que seu compromisso maior não era com sua beleza, e sim com seus filhos pequenos, que precisavam dela para seguirem seu caminho, sendo amados e amparados.
Ao lembrar do longo sofrimento da sua mãe ela fez o que o escritor português Domingos Amaral descreve muito bem: “É uma forma suprema de amor, de amor de mãe e de amor à mãe”.
Ao cortar pela raiz tanta dor, dando possibilidade de que seus filhos não a vissem doente, Angelina Jolie transformou-se numa mulher maior que ela mesma.
Avesso à polêmicas, com seu perfil discreto de sempre, Dr. Sérgio Camargo tomou inúmeras decisões, uma delas foi criar e desenvolver uma técnica para histerectomia, salvando vidas de mulheres que também são afligidas por outra patologia, o câncer de útero. Como grande ser humano que é, sendo capaz de pequenos gestos de grandeza ímpar.
Uma paciente extremamente querida dentro da Santa Casa foi diagnosticada, como milhões de mulheres, com câncer de mama. Angustiada e amedrontada pela patologia, teria que fazer um procedimento em Porto Alegre. Era um entrave quase intransponível, o pânico de cidade grande aliado ao estigma da doença travava o tratamento.
Dr. Camargo foi informado, e se apresentou como voluntário na rede de amigos que torciam para a recuperação da paciente. Quando esta foi finalmente convencida a ir à Porto Alegre, ele tomou uma decisão que me faz admirá-lo ainda mais como homem, e médico. Cancelou seus compromissos para ficar de plantão na portaria do hospital ao qual se dirigia a paciente. Desarmada pela demonstração de atenção ao ver um amigo lhe estender a mão vigorosamente, a partir dali o tratamento foi mais leve, o tempo correu mais rápido, e a cura chegou.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “DARWIN E NÓS”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Desde criança tenho uma lista de grandes da história, pessoas que influenciaram a humanidade a ser melhor. Homens e mulheres que por suas ideias modificaram o pensamento, nos trouxeram para mais perto do que seria a verdadeira civilização.
Nessa época ganhei do meu pai duas coleções que me fizeram viajar pela história, “ Grandes Vultos “, tudo ilustrado, que li nas férias da campanha, e a gigantesca “ História Geral das Civilizações “, bem este não tive fôlego, confesso. Meu pai dizia sempre que “ livro não tinha preço “, genial ouvir isso de um pai não é mesmo ?
Falemos então dos gregos, que foram os primeiros da minha lista, todos eles.Pulando de lá para cá na linha do tempo, fui pescando alguns nomes que me fizeram parar e admirar o tanto que ajudaram, nessa jornada que a humanidade trava neste pequeno planeta azul chamado Terra.
Charles Darwin foi um deles, inglês rico e bem nascido, andou na juventude até pelo nosso Brasil, a coletar espécimes para suas pesquisas. Ele ficou embevecido com a exuberante natureza intocada ainda pelo progresso, isto no final do I Império. Esta coleta de dados serviu para elaborar a teoria evolucionista. Entre outras coisas esta teoria explica como os diferentes animais podem ir se adaptando, aprimorando técnicas para a sua melhor sobrevivência.
Quando Darwin, já no final da vida, enfrentou o clero no seu país de origem, e relata que nós humanos compartilhamos um ancestral comum com os macacos, foi um escândalo.
Dia destes eu estava assistindo um documentário da NationalGeographic, era sobre os diferentes macacos da África. Lá existem, de um lado do imenso rioOkawango que corta o continente, os gorilas e chimpanzés; na outra margem, os bonobos.
Os gorilas são macacos muito grandes, nenhum outro macaco mexe com eles. Os chimpanzés são um espetáculo a parte, tal é a sua inteligência. Os chimpanzés são comandados por um macho alfa, só ele tem direito a procriar com as fêmeas. Ao seu redor há outros machos que o servem, e que um dia competirão para tomar o seu lugar, e assim poder pegar todas as fêmeas do harém.Enquanto isso esses machos são submissos, mas podem bater nas fêmeas se o macho líder assim ordenar.
Já os bonobos, que não tem a competição territorial dos gorilas, e ficam na outra margem do rio, separados também dos chimpanzés, são comandados por uma matriarca.
E olhem a diferença. Não há brigas! Todos vivem juntos, se alimentam juntos, criam os filhos juntos. Agora pasmem, se há desentendimentos as fêmeas rapidamente tomam a iniciativa, acarinham o irritado de plantão e copulam, todo o bando encontra no sexo uma válvula de escape para o stress da vida diária.
Nossa civilização avança, mas muitas vezes também dá sinais de retrocessos que beiram a escuridão de outros tempos, tempos primevos, onde o mais forte usava a borduna para se fazer ouvir, e os outros o seguiam.
É inadmissível que homens que se dizem homens usem da força física contra a mulher, não para medir forças com outros homens, mas para se fazer forte perante a figura da mulher, e assim serem a voz autoritária, e é a mesma que também usa de violência contra a criança. Pobres crianças que muitas vezes não tem um pai para dizer: “ livro não tem preço “. Carinho e dedicação também não.
A sociedade como um todo tem que agir, as mulheres já não são só donas de casa, e por serem economicamente ativas querem voz e espaço, que este espaço seja também delas.
E sejamos mais bonobos que chimpanzés.

DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “OOOO FERNANDO!”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Nasceu pobre, melhor dizendo, miserável, filho de um casal de rancheiros em uma rica propriedade rural, na década de 1930. Num campo que era lindeiro ao Cunhatay, onde ainda fica a casa dos meus avós.
O pai, chamado Sebastião, sobrenome desconhecido, era um pobre coitado, nem o título de peão tinha, trabalhava para obter sustento dentro do campo dos ricos fazendeiros, ajudava na lida, uma horta rudimentar provia a comida. E era desastrado, conseguiu se enroscar num arame farpado, ficou com uma fístula na traquéia, se bebia muito chimarrão, saia para fora o excesso, como se fosse uma traqueostomia antiga jorrando o líquido verde pescoço abaixo.
A mãe parecia uma índia, a Comadre Carmen, ficava nas cozinhas alheias ajudando quando em algum lugar havia festa, para poder levar as sobras para casa. Já vergada pelo trabalho, miséria e a filharada.
Fernando era mais uma boca para alimentar, um de tantos filhos. Haviam mais de doze, todos com o traço dos primeiros povoadores destas terras.
Em algum momento da adolescência ele teve um surto esquizofrênico, via santos que lhe falavam, vozes que lhe despertavam hora calma, hora ira, e sempre seria assim dali por diante.
A esquizofrenia se manifesta geralmente neste período em que há a transformação da infância à vida adulta, e como relatado na literatura médica a predisposição é familiar. Dos vários irmãos do Fernando eu conheci dois deles. O Curuca esquizofrênico e alcóolatra, e Marieta que tinha um enorme mioma uterino, durante anos manteve a enorme barriga que dizia ser uma gravidez.
Dos santos de Fernando, São Sebastião era o mais importante, talvez por ter o nome do pai, por quem não tinha afeto algum.
O improvável, mas que parecia ser a melhor explicação, era o sofrimento pelo qual passara o santo, morto em martírio. Na Roma antiga haviam descoberto que um oficial centurião chamado Sebastião era cristão, e foi então morto crivado de flechas.
Contava-se em família que os pais de Fernando foram desalojados pelos estancieiros, quando não havia mais como o velho Sebastião trabalhar. Que fossem morrer à míngua em outro lugar, fora dos domínios da rica família. Era uma época que não se ouviam falar nas leis que Getúlio Vargas implementaria para os trabalhadores. Para o homem do campo só valia a palavra dos donos da terra.
Minha avó que reconhecia a força de trabalho daquela gente se revoltou, levava comida e roupas para o rigoroso inverno na região, no casebre de taipa, na beira de estrada.
O Fernando foi chamado e feito ajudante para tudo o que fosse pesado para minha avó fazer em casa. Com uma força fora do normal, cortava lenha e trazia de carrinho de mão, enchia a pipa de água no arroio, e a deixava embaixo do parreiral, a água era para ser consumida na cozinha.
De manhã pendurava os pelegos das ovelhas mortas no estaqueador e o charque no varal bem alto, para não serem roubados pelos cachorros do meu avô Idelmar, e recolhendo antes de começar o sereno da noite. Tudo em meio às imprecações que soltava, a cada meia dúzia de palavras, contra os santos que o perseguiam e atormentavam.
Não gostava da cama e do quarto destinado a ele, transformara tudo em um sacrário cheio de imagens e fotos de santos, velas eram acesas dia e noite, seu único pedido quando minha avó ia à cidade eram fósforos e velas. Ele de noite atirava uns pelegos e ficava deitado na área que separava a casa em duas, guardando o sono dos patrões.
Tinha uma obediência absoluta pela minha avó, que só não podia controlá-lo em noite de trovoadas, quando ele ia até a porta da cozinha, que se dividia ao meio e de frente para o galpão, de lá proferia impropérios aos céus, de facão em punho, mas sem se atrever a sair ao relento, apavorado e feroz. Imagem impressionante para mim, que não chegara ainda aos dez anos, e vi várias vezes ele com olhar desvairado, com medo do temporal.
Ganhou um cachorro que colocou o nome de Fiango, e se Fernando era uma sombra nos calcanhares da vó Orphelina, Fiango era a sombra da sombra.
Achou por bem colocar uns brincos, minha avó não lhe deu ouvidos, e ele apareceu com as orelhas furadas com o cravador de colocar as plaquetas na orelha dos terneiros, e no lugar os brincos desejados, arame. Vó Orphelina não teve outra saída a não ser providenciar as argolas.
Não calçava sapatos jamais, e no inverno era difícil usar uma camisa, parecia um Urtigão das histórias em quadrinhos, só que sem barba e careca. Minha mãe uma vez lhe deu um blusão de lã feito por ela, não usou, mas guardava com grande respeito.
Vez por outra a avó vinha com sua Belina até Bagé, trazia o Fernando para abrir as tantas porteiras, com a promessa de passar na Catedral e na Santa Casa, para ele admirar as estátuas de São Sebastião. Caso contrário ele fazia a pé o percurso só para cumprir sua sina de venerar o santo.
Se não chovia, e o pasto estava seco sempre havia um gaiato a pedir, “ ôoo Fernando dá um jeito nos teus santos “, todos eram colocados de molho n’água, de ponta cabeça, só saindo daquela posição, imprópria para uma santa imagem, caso caísse um dilúvio.
Numa noite, quando meu avô já estava muito doente em Porto Alegre, na hora da minha avó servir a janta à peãozada, Fernando profetizou que todos ali morreriam em breve, e deu a ordem cronológica, iniciando por ele, mas dando mais 10 anos de vida à minha avó, todos troçaram dele. Na manhã seguinte, passou com as achas de lenha para o fogão fumegante, a vó no galpão lhe pediu erva para o chimarrão quando voltasse, ele se demorou e ela foi atrás.
Pela primeira vez o encontrou deitado, tinha ido para a cama, sereno, e jazia morto. Minha vó, que era muito cética, olhou triste e ao mesmo tempo impressionada, a vela que estava sempre acesa aos pés da imagem do santo de devoção, pela primeira vez se apagara.
A roda da vida, para espanto de toda a família, girou numa grande velocidade, depois dele, meu avô, o capataz, e o jovem peão, todos partiram em apenas seis meses. Minha avó, cumprindo o inexplicável vaticínio, veio a falecer 10 anos depois.
“ No creo em brujas, pero …”

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