DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: O GAÚCHO DE ALEGRETE.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Recém chegado em Porto Alegre fui atrás da parentada para que me ajudassem com todos os perrengues que um jovem estudante passa num grande centro, e o pior deles me parecia ser, ter avalista para alugar um apartamento. Mas o meu tio Ary era o cara !
Era um velhote fino, parecia um cavalheiro inglês tal era a elegância com que se vestia, com poucas posses mas cheio de estilo. Loja só a “ Homem Moda Atual “, onde se vestiam os senhores acima dos sessenta. Cabelo branco penteado para trás e o bigode também muito bem cuidado, com um leve retorcido nas pontas. Até garoto propaganda do GBOEX ele fora. Aparecer na televisão, isso lá pelos anos 70 era um acontecimento. Então era mais ou menos assim, uma sala de reuniões, o meu tio sentava à cabeceira, levantava com veemência e dizia: “ Conseguimos ! Atualizar e manter ! “ A família ficava embevecida com seu astro televisivo.
Caso o cutucassem com vara curta, virava uma fera, baixava o gaúcho que sempre prezava ser e podiam sair da frente, que não temia nada.
Minha tia era uma graça de pessoa, delicada, frágil. Muitas vezes quase infartava com as peripécias do marido. Certa vez foram à rua Lima e Silva visitarem uma irmã dela. Domingo, logo após o almoço, ele empertigado sentiu uma mão no bolso da calça. Pensando ser um amigo lhe fazendo troça, levou a mãozarrona e deu de cara com um assaltante. Com um braço preso o pilantra da capital começou a sentir que não devia ter se metido com aquele casal que parecia ser uma presa fácil. Com o ladrão ainda agarrado o tio sacou uma faca de prata de dentro do seu casaco de tweed, e ia sangrá-lo se o infeliz não escapasse a trote. Vociferando o meu tio gritava a pleno: – “Vem cá, vem que vou te dar o dinheiro que está aqui na minha mão, vem…” Minha tia chegou no destino pedindo dois sustrates e um copo d’água, e que voltaria de táxi para casa.
Doutra feita precisei novamente de avalista. Necessitava de roupas novas para o inverno que chegava, o Iguatemi tinha inaugurado há pouco tempo. O novo empreendimento era um local que os funcionários se achavam, olhavam o estudante com ar de superioridade. As portas do shopping ainda estavam cerradas, muitas mulheres entusiasmadas se aglomeravam para entrar assim que abrissem, e o tio começou: – “ Mas até parece um rebanho de ovelhas para entrar no brete “, falando suficientemente alto para que fosse ouvido.
Fomos logo na Casa José Silva, onde eu tinha escolhido previamente o que iria comprar, e na sobreloja para fazer o cadastro. A funcionária não teve tato algum, meio que largou a ficha para que se preenchesse, pois rápido o tio pegou, e na mesma forma que havia sido entregue foi imediatamente devolvida: – “Minha filha sou analfabeto de pai e mãe, preencha por favor “, e cruzou os braços. A funcionária emburrada não teve opção a não ser iniciar o questionário completando toda a ficha. Detalhe, de analfabeto ele não tinha nada.
Com um afeto enorme os tios me mandavam que ligasse toda a semana e me convidavam para visitá-los, e lá ia eu atravessar a Oswaldo Aranha para pegar o rumo do apartamento na Jacintho Gomes, rua pacata onde moravam. Com a entrada na faculdade as visitas foram se espaçando e depois de formado me mudei para Pelotas, para iniciar a Residência Médica.
A tia estava doente, um câncer de mama a debilitava cada vez mais, e logo ele adoeceu. Foi levado para a PUC e fiquei sabendo pelos primos que ele dizia para todos os estudantes que tinha um filho médico formado ali. Não aguentei e fui vê-lo no primeiro final de semana livre.
Era outro homem, pálido, cabelos revoltos, ficou eufórico com minha visita e começou a chamar os doutorandos e residentes que estavam de plantão. Eu conhecia a todos porque me formara um ano antes. Eles disseram: – “Que bom que vieste, ele falava sem parar que tinha um filho médico”. Tendo alta, os sintomas de decrepitude vieram a galope, foi diagnosticado com Alzheimer. Era demais ver sua esposa “Lidinha” morrer lentamente.
Dr. Alois Alzheimer em 1906 descreveu o primeiro caso da doença que leva seu nome. Segundo a literatura médica, é: “ doença que se apresenta como demência, ou perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais. Quando diagnosticada no início, é possível retardar o seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas, garantindo melhor qualidade de vida ao paciente e à família. “
Com a morte da esposa minha prima mais velha levou-o de volta ao pago, assim teria os cuidados da família na sua adorada Alegrete. A vida pode ser bem dura, mas contando com a presença firme da família isso pode ser abrandado. Vez por outra ligava para saber dele. Passava macambuzio enrolado num poncho de lã, nem de perto lembrava o cavalheiro vestido de tweed. Veio a falecer, mas deixou uma lembrança boa. Seu espírito exuberante que enfrentava ladrão de faca em punho e olhar firme, encarava o que viesse pela frente, como se dissesse novamente para as câmeras de televisão: “ Conseguimos ! Atualizar e manter ! “

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