AS SANTAS POPULARES DE SÃO GABRIEL.

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Maria Izabel Hornos, a “Guapa”, era uma mulher muito bonita.

O município de São Gabriel é conhecido por ter sido palco de batalhas e combates sanguinários, em muitas guerras que tiveram episódios em seu solo sagrado. Também por ser berço de militares ilustres e políticos destacados.
E não fica só nisso. Tem muito mais. Por aqui nasceram outros vultos que alcançaram renome nacional nas artes, na religião e em muitas outras coisas.
E não se deve esquecer a vocação que a cidade sempre teve para venerar pessoas, locais e ter na credulidade algo que se mistura com realidade, história ou ficção.
Vou procurar me aprofundar um pouco nessa questão. Começando com a “Ciganinha” e a “Guapa”, que estão sepultadas no cemitério local. A “Ciganinha”, bem a esquerda de quem entra. É a primeira catacumba, embaixo. A “Guapa” já mais para o centro, mas bem fácil de achar.
E não tem outro jeito para contar com precisão tudo o que aconteceu em São Gabriel, no passado, que não seja pedindo socorro ao historiador da cidade, o admirável amigo Osório Santana Figueiredo.
Ainda bem que tenho na minha biblioteca a totalidade dos livros que ele escreveu. O que garante um estudo minucioso sobre qualquer coisa que diga respeito a São Gabriel. E o seu Osório conta com mínimos detalhes os passos desses personagens que ajudaram a criar toda essa gama de episódios.
Em 1944, a cidade conheceu um de seus piores invernos. A geada tapava de branco os campos. O vento Minuano soprava implacável, trazendo uma sensação de mais frio. Sei bem o que é isso, pois convivi vários anos com o tenebroso frio gaúcho, em Dom Pedrito, minha terra natal, e em São Gabriel, cidade que mora no meu coração.
E foi num cenário desses que um grupo de ciganos com suas famílias, chegou a São Gabriel. Vieram em caminhões e automóveis, acampando em um terreno baldio, perto dos trilhos da Viação Férrea, onde hoje se encontra um Supermercado.
Anos mais tarde os ciganos acampavam em outro local, uma área próxima ao Armazém Motta, do meu saudoso sogro Gelcy Motta. E quando eu e a Teresinha, minha esposa, morávamos lá, muitas vezes visitamos os acampamentos e até fizemos amizades com vários ciganos e ciganas.
Trata-se de gente boa, nômades por natureza. Comerciantes por vocação e necessidade. Naqueles tempos, quando eu era criança, vendiam tachos de cobres, objetos que duravam uma vida inteira. Ficou um lá em São Gabriel, que ainda pretendo trazer para Brasília, e com ele fazer doces de dar água na boca.
Talvez escondido da amiga Carmenci, viúva do meu sogro e guardiã do que sobrou do armazém. Brincadeira a parte, tenho certeza que ela não vai se importar com isso e me garantirá o presente.

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Anita Costichi, a “Ciganinha”.

Os ciganos também vendiam baterias de carros. E as ciganas buscavam nas ruas clientes interessados em saber coisas de suas vidas. A futurologia foi sempre uma característica delas. Os pagamentos podiam ser feitos de várias formas, dinheiro, objetos diversos, aves e outros animais.
E quem um dia não deixou uma cigana ler a sua mão? Eu deixei muitas vezes. Era divertido e as histórias contadas por uma, geralmente era repetida por outra. E não vaticinavam coisa ruim para ninguém.
A curiosidade levava dezenas de pessoas a visitar os ciganos, especialmente aos domingos e feriados. Nessas ocasiões tudo se transformava em festa.
Lembro de um casamento de ciganos celebrado lá perto de casa. Uma semana inteira de alegria. Comida sobrando e bebida também. Baile da manhã a noite e as vezes varando as madrugadas, tendo a lua como acompanhante.
Uma característica das ciganas jovens é a beleza. Pena que com a idade avançando ela diminua bastante, talvez por força da vida que levam, sempre viajando. E entre as mais bonitas estava Maria Anita Costichi, que mantinha a formosura, mesmo com 40 anos de idade.
Era alegre, descontraída e tratava a todos com educação e doçura no trato. E rapidamente fez amizade com a gente da cidade. Era solidária com pessoas doentes, não só do grupo como de qualquer outro morador.
Mas ela própria, de repente viu-se vítima de terrível doença. Mas como esse mundo é traiçoeiro e as vezes não perdoa nem as melhores pessoas, Anita teve de lutar pela vida. Não foi mais vista andando pelo acampamento. Teve de recolher-se a uma tenda, visto que o mal se agravava com rapidez.
Até que na noite de 8 de agosto daquele ano de 1944, por volta de 22h30min, ela morreu. O médico gabrielense, doutor Oswaldo Passos D’Utra, que a atendeu durante o tempo em que esteve adoentada, atestou um câncer no reto, como a causa da morte.
Uma coisa chamou a atenção das pessoas que compareceram ao velório de Anita. Seus companheiros ciganos pareciam não demonstrar qualquer sensação de dor. Tudo funcionava normalmente. Ninguém derramava lágrimas e nem lamentava o ocorrido.
Por desconhecer o modo de vida dos ciganos, as pessoas estranhavam esse comportamento. Na realidade, esse povo tem uma maneira diferente de encarar a morte. É outra cultura. A morte é vista como algo normal, próprio da vivência terrena.
O enterro da cigana teve um grande acompanhamento. Os ciganos colocaram carros a disposição da população. Muita gente nunca andara de carro antes. Os enterros de pobres especialmente, era feito naquela época no pulso, pelos corredores do cemitério.
Pouco tempo depois, começaram a surgir às primeiras velas no túmulo da “Ciganinha”. Seguindo-se a colocação de enfeites coloridos, fitas e lenços vermelhos e recortes amarelos. E por fim dinheiro, que muitas vezes era surrupiado. Era gente pedindo milagres à cigana que virou santa.
Sua fama de “milagrosa” ultrapassou as fronteiras de São Gabriel e se espalhou por todas as partes, seguindo-se verdadeiras romarias de pessoas a procura da cura de seus males ou de decepções amorosas.
É comum até hoje deparar-se com dias em que a quantidade de oferendas é tão grande, que os funcionários do cemitério são obrigados a efetuar várias limpezas.
Quando eu morava em São Gabriel, muitas vezes vi pessoas ajoelhadas frente o tumulo da “Ciganinha”, pedindo alguma coisa e pagando com algo colorido, o que se explica pelo gosto desse povo por cores mais fortes.
A outra “santa do povo” foi Maria Isabel Hornos, popularmente chamada de “Guapa”, uma uruguaia que veio morar em São Gabriel e se tornou dona de um bordel.
O apelido ganhou, porque gostava de se vestir a moda campeira, com botas, bombacha e chapéu de aba larga. Também era eximia tocadora de gaita e trovadora das mais respeitadas.
Tratava-se de uma mulher de beleza esplendorosa, cobiçada pelos homens da cidade, na época. Nasceu no vizinho país em 15 de junho de 1897, tomando o rumo de São Gabriel na década de 1920.
Sua casa ficava na rua Celestino Cavalheiro, onde funcionava uma pensão de mulheres, a mais frequentada, não só por causa de “Guapa”, mas também pelas lindas mulheres que lá se encontravam.
O fato de “Guapa” ser uma prostituta não queria dizer nada, perto da bondade de seu coração. Dizem que ela vivia rodeada de crianças. Os vizinhos a apreciavam. E ela se importava com os pobres, procurando sempre ajudar de todas as formas, dando alimentos e roupas aos mais necessitados.
Todos os atributos que tinha, beleza, bom coração, honestidade, não foram suficientes para que continuasse viva. Em uma noite de Carnaval, 3 de março de 1924, “Guapa” foi covardemente assassinada com alguns tiros nas costas, quando se enfeitava a frente de um espelho.
Dizem que os projéteis partiram da janela, do lado de fora, desferidos por um cabo dos Provisórios do Exército. E o crime fora encomendado por uma esposa ciumenta, que não tolerava o romance de seu marido, estancieiro muito conhecido na cidade, com “Guapa”, mulher mais bonita que ela.
Como sempre acontece quando tem alguém poderoso envolvido em crimes contra pobres, o culpado ficou impune. Até hoje o caso é comentado e nas conversas de botequins, o nome da mandante do crime é falado abertamente, até porque ela já morreu, faz tempo.
O que restou a “Guapa” é o seu espirito ter presenciado um sepultamento com grande acompanhamento, pois era uma pessoa muito querida na cidade, especialmente pelos mais pobres.
O caixão foi carregado por dezenas de pessoas, que se alternaram na piedosa missão até a chegada ao cemitério. A partir dai o seu túmulo virou um santuário, onde pessoas de todas as partes chegam com flores e placas de homenagens, para pagar promessas.
E isso se deveu em muito a uma devota de nome Modestina da Silva Dux, já falecida, que durante muitos anos promoveu no “Dia de Finados” uma procissão até o túmulo daquela que ficou conhecida como uma “santa do povo”. A procissão deixou de ser feita, mas a devoção continua.
O saudoso tradicionalista Antônio Augusto Fagundes, escreveu um livro com o título de “As Santas-Prostitutas: Um estudo de devoção popular no RS”, em que conta a história de “Guapa” e de outras mulheres.
E foi nesse livro que encontrei a “Oração a Guapa”, que aqui reproduzo e que foi mandado publicar por Modestina da Silva Dux:
A nossa protetora espiritual, nossa milagrosa Isabel (Guapa), peço que afaste as más companhias, nos consiga saúde, boas amizades e bons negócios, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém.
Deus, com sua infinita misericórdia Divina e nossa protetora e milagrosa Isabel Guapa, nos dê toda a confiança em vossos méritos perante Nosso Senhor Jesus Cristo. Entrego-me a Vossa proteção rogando-vos afastar de mim as más companhias, aproximando-me dos bons que podem auxiliar-me no caminho da vida.
Livra-me de todos os meus inimigos, Visíveis e invisíveis, nossa protetora e milagrosa Isabel Guapa, assim como Vós foste sacrificada traiçoeiramente, assassinada pelas costas, roubando vossa preciosa vida.
Protetora e milagrosa Isabel (Guapa), Vós que a todos estende suas mãos protetoras e amigas, com uma eterna gratidão a todos os seus devotos, que Deus nosso Pai todo poderoso abençoe a Santa Fraternidade, entre todos os seus filhos, com as divinas Vibrações de Harmonia, Amor, Verdade e Justiça. Que a Paz de Deus a guarde, iluminada e milagrosa Isabel Guapa.
Viva Nosso Senhor Jesus Cristo. Viva a nossa protetora espiritual a milagrosa Isabel Guapa.
Pede se a graça e reza-se 1 Padre Nosso 1 ave Maria. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, Amém.
Eu pretendo em outras oportunidades voltar a tocar no tema, que realmente é interessante e envolvente. Já há quem pense em explorar esse nicho como referencial turístico, o que não deixa de ser uma boa idéia.
O espaço do cemitério de São Gabriel já foi objeto de estudo, bem como outros locais da cidade relacionados ao enterramento de pessoas, como a “Capela dos Fuzilados”, a “Capela dos “Noivinhos” e o “Nicho Funerário” com os restos mortais do monsenhor Henrique Rech, na Igreja Matriz.
Seria, vamos chamar de turismo imaterial. Já o turismo em cemitérios já existe, tendo como foco principal a exploração do patrimônio artístico e arquitetônico. E isso também poderia ser explorado em São Gabriel.
Sabe-se que em algumas localidades cemitérios já foram transformados em museus, sem se afastarem das suas funções originais. (Pesquisa: Nilo Dias)

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