DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “RECORDAÇÕES DA MINHA ESQUINA”.

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Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 – RQE 11776

Dia destes estava de aniversário, mais um ano, e fui surpreendido por um presente do acaso. Era a carta de um leitor inusitado, por ser de fora do nosso Rio Grande, não imaginava ser lido além da nossa região.
Neste espaço onde eu comecei como colaborador, acho importante relatar fatos, tentar esclarecer dúvidas e dar uma versão do que acontece do lado de dentro de uma instituição hospitalar, isso humaniza, quebra barreiras, faz com que as pessoas se identifiquem e torna a vida mais tranquila, dos pacientes e seus familiares, mas também do pessoal que trabalha em saúde.
Já aconteceu de um pai que perdera sua filha amada se inserir tanto dentro de uma crônica, em que toco no tema do falecimento de filho e na dor que esse evento gera numa família, que ao estar passando por este horror que o destino lhe impôs, me procurou. Ele entrou contido no meu consultório só para extravasar seu pedido de ajuda. Me segurei na cadeira atordoado tentando desobstruir os caminhos que o levavam ao mais completo desespero. O ser humano é um forte.Ao estar náufrago num oceano de lamento ele reconstruiu sua vida e aos poucos foi colando os pedaços de seu coração de pai. Me conforta que o ajudei a superar o primeiro estágio do luto, aliviando, na medida do possível, a dor lancinante que o tomava por completo.
Mas este espaço é também para o saudosismo mais desbragado. Sou filho orgulhoso de dono de restaurante. Mal comparando tem gente que para se sentir bem vai num templo, sabem qual é o melhor lugar para eu me sentir bem? Um restaurante. Há alguns detalhes: nada de lugarzinhos quietos e intimistas, tem que ter gente, conversa no ar, e comida boa, claro.
O “Esquina Bianchetti“ , em Bagé, era assim. Vejam o que me diz este leitor, na época um jovem trabalhador de um dos mais renomados bancos privados do Brasil. Ele que vinha de avião periodicamente de São Paulo até Porto Alegre, e depois de ônibus até Bagé, lá pelos anos 70. Diz ele: -“Me sinto bem ao lembrar o prazer com o qual frequentei aquele ambiente familiar e amigo, pela qualidade da comida servida e pela fartura de oportunidades de uma conversa interessante. Ali, naquela época, aprendi como era bom estar longe, para se sentir em casa. “
Mais adiante complementa:
“Me identifiquei com o texto, primeiro porque essa é uma parte valiosa da minha vida. Em segundo, porque me faz lembrar que um dos sentidos importantes da vida é poder guardar e preservar o que nos faz bem“. Brilhante na sua sensibilidade, captou o que era a atmosfera da casa, e de mais a mais, acredita no que eu acredito.
Hoje um profissional de sucesso, e com certeza super ocupado, encontrou tempo para me escrever relatando seu sentimento de nostalgia. Ganhei o dia.Posso dizer que se ainda há homens assim em postos chave, este Brasil vai adiante. Não posso prever quando isto vai acontecer, mas um dia desencanta e acontece.
E dando vazão à esta nostalgia toda, vamos reproduzir o que pode ter sido a refeição do nosso anônimo viajante paulista pela minha Bagé nos idos de 1970.
Os invernos de Bagé naquela época eram de um frio absurdo. Meus primos paulistas até hoje lembram das temporadas que passavam nas férias para visitar nossa avó e do frio constante que sentiam.
Então para estes viajantes incautos o meu pai sempre mandava que os garçons sugerissem uma taça de consumê (do francês consommé), como entrada. Vinha numa tigela específica para este fim, um ovo praticamente cru ao fundo, e caldo de frango quente, que estava sempre a borbulhar no fogão à lenha. Acompanhava um pãozinho.
Depois, na certa, era a especialidade da casa: o spaghetti do Bianchetti. Uma maravilha que até hoje minha adorável tia Ruth é mestra. Com 700 g de uma boa farinha de trigo peneirada se junta nove ovos da galinha caipira, faz-se a massa, passa no cilindro, e voilá, tem-se uma delicía. Junto ao molho de carne que também borbulhava no mesmo fogão, e mais um dos vinhos chilenos que se costumava oferecer no restaurante o viajante ia ao céu do prazer alimentar e voltava para a terra, mais sábio, mais disposto, pronto para enfrentar tudo o que a vida lhe oferecesse.
E vocês leitores anônimos ou não, dão a este cronista mais entusiasmo e satisfação ao escrever o que acalenta a alma nossa de cada dia, as lembranças, podendo ser um lugar que a saudade transformou num paraíso intocado, ou até numa superação de um pai em momento de dor.

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