A HISTÓRIA QUE PARECE LENDA

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Castelo de Pedras Altas

SEGUNDA PARTE

A primeira visita a Pedras Altas em 1910 foi a do tenente Mário de Sá, redator do jornal “O Comércio”, de São Gabriel, tido por Assis Brasil na conta de brilhante escritor.
Reformando-se ainda como tenente, Mário de Sá radicou-se em Porto Alegre, em cuja imprensa militou, alcançando renome como polemista. Terminou seus dias na redação do “Correio do Povo”, como editorialista de forma escorreita e estilo castigado.
Em 24 de fevereiro de 2008 tiveram início as obras do castelo, com os trabalhos de escavações. Em 14 de dezembro foi lançada a pedra fundamental. O projeto foi traçado pelo próprio Assis Brasil.
Os primeiros animais vacuns adquiridos por Assis Brasil, com vistas a incorporá-los a uma granja-modelo, como seria a de Pedras Altas, foram da raça Jersey. Em 1895, quando era ministro plenipotenciário em Lisboa adquiriu duas vacas Jersey, na Inglaterra, que pertenciam ao plantel da Rainha Vitória.
Mantidas inicialmente em Portugal, foram levadas para Ibirapuitã e, posteriormente, para Pedras Altas, onde constituíram a base do plantel ali formado.
Os cavalos criados por Assis Brasil só corriam em seu nome quando não havia comprador. Infenso a disputar prêmios nos hipódromos, também o era às apostas em corridas. Concentrava na criação dos animais todo o seu interesse pelo puro sangue inglês.
E o fazia movido pela ideia de que era indispensável, até por imperativo de segurança nacional, melhorar a qualidade do cavalo crioulo, através de cruzamentos com o árabe e o inglês de corrida.
Fundado na Estância do Ibirapuitã, o seu haras foi transferido para Pedras Altas e, posteriormente, localizado na Estância de Itaiaçu, estabelecimento por ele adquirido no município de Uruguaiana.

INTRODUTOR DO DEVON NO BRASIL
Foi também Assis Brasil que introduziu no Brasil o gado Devon. Este era originário da Cabanha Loraine, instalada em Paisandu, no Uruguai, pelo inglês J.G. French, que ali viveu e trabalhou por mais de 30 anos.
Era um grande estancieiro. Seu estabelecimento, contava com 3.500 reses Devon, a maioria puras por cruza e muitas de pedigree, subdividiam-se em 28 potreiros.
Depois de adquirir os primeiros animais Devon para Pedras Altas, Assis Brasil partiu para importações diretas da Inglaterra, berço da raça. O dono de Pedras Altas acumulou a experiência de criar gado Devon em larga escala.
E dizia que se tratava da mais antiga de todas as raças aperfeiçoadas do mundo, considerando-se estabelecida definitivamente há mais de 500 anos.
Outros importantes criadores de gado Devon, desde os primeiros tempos: Rafael Barcelos Gonçalves, de Rosário; José de Assis Brasil, de São Gabriel; Visconde Ribeiro de Magalhães, de Bagé; Nicolau Kroef, de São Sebastião do Cai e Luiz Dutra, de Bom Jesus.
Foi também Assis Brasil que trouxe as primeiras ovelhas da raça “Karakul”, para o Brasil.
Em 30 de junho de 1913 foram realizados o primeiro almoço e também jantar da família no Castelo, com a presença do casal Pedro Osório. Nessa data também, além do castelo propriamente dito, foi inaugurada a adega, com verdadeiras preciosidades, entre as quais um “Xerez”, de 1895 e um “Napoleon”, conservado em velho casco, atribuído a safra de 1694. Ainda havia garrafas centenárias de vinhos “Mariscal Sucre” e “Pitt”.
Grande conferencista, Assis Brasil colheu um dos maiores êxitos de sua vida pública ao falar sobre “Idéia de Pátria”, no Teatro Municipal de São Paulo, a 22 de setembro de 1917, atendendo convite da Liga de Defesa Nacional.
Em 1914, Assis Brasil esteve em São Gabriel, onde ficou por dois dias. Aproveitou para visitar a “Estância do Trilha”, fundada pelo seu mano João. Foi nessa casa, cedida pelo proprietário, que se instalou o primeiro clube republicano do município.
Em 21 de agosto de 1915 Assis Brasil procedeu a arborização da antiga Praça São Luiz, em São Gabriel, que depois teve o nome mudado para 15 de Novembro. O trabalho encerrou dia 23 e as mudas foram plantadas pessoalmente pelos sobrinhos Ptolomeu, José e Leônidas.
Diversas pessoas do lugar, inclusive o chefe político Fernando Abbott e o intendente Francisco Menna Barreto, também ajudaram no trabalho de arborização, plantando numerosas mudas por suas mãos. Foram plantadas diversas espécies, exóticas e nativas, inclusive quatro pés de angico e quatro de carvalho.

UM GRAVE INCIDENTE
Em 3 de março de 1916 deu-se um grave incidente, quando Francisco, filho de Assis Brasil, desobedecendo ordem formal do pai, retirou uma arma de um armário e esta disparou, acidentalmente atingindo o amigo João Menditeguy.
A bala deu em cheio na base do pescoço, na abertura do esterno. Por um milagre não ofendeu nenhuma artéria. Estava na Granja, naquele dia, o médico doutor Pedro Osório que fez os necessários curativos. Depois de consultas com outros profissionais, o ferido ficou são.
Percival Farqhuar o riquíssimo proprietário de estradas de ferro, nas duas primeiras décadas do século, ao visitar a sala de Armas do Castelo de Pedras Altas em 1916 perguntou a Assis Brasil: “Por que tinha tanto armamento”. Assis Brasil respondeu-lhe sobranceiramente: “tinha muitos inimigos”.
Em 1924, tendo surgido um movimento revolucionário, exilou-se no Uruguai. Em 1927 os sufrágios de seus correligionários o elegeram deputado federal. Nesse mesmo ano teve participação destacada na fundação do Partido Democrático Nacional.
Em 1928, com Raul Pilla, fundou o Partido Libertador. Em 1929, o presidente Washington Luís pretendeu impor a candidatura de Júlio Prestes para a sucessão presidencial.
Assis Brasil aconselhou o Partido Libertador a cerrar fileiras em torno de Getúlio Vargas, então Presidente do Estado, que se opunha ao candidato oficial e prometera aceitar o voto secreto se eleito presidente.
Em 1930 Washington Luís foi deposto e Getúlio Vargas assumiu o poder como Chefe do Governo Provisório, do qual Assis Brasil fez parte como Ministro da Agricultura, cargo ao qual renunciou em protesto contra o empastelamento do jornal “Diário Carioca”, por pessoas ligadas ao tenentismo.
Em 1932, foi o grande idealizador do Código Eleitoral, baseado em sua obra “Democracia Representativa: do voto e do modo de votar”. Neste código está a primeira menção à urna eletrônica, quando ele levantou a hipótese da utilização de uma máquina de votar.
Em 1934 foi em missão especial a Buenos Aires, para ocupar a Embaixada do Brasil, acéfala desde o movimento revolucionário argentino de 1930, por não haver o presidente Washington Luís reconhecido o governo do General Uriburú.
Assis Brasil disse a Mem de Sá sobre a repartição de cargos e ministérios na Revolução de 1930: “Menino, todo homem tem seu preço. O venal se deixa comprar por dinheiro. O meu preço é o Código Eleitoral. E como vale mais a pena ladrar dentro de casa do que fora dela, aceito o ministério”.
Suas últimas participações em conferências internacionais foram a chefia da “Delegação Brasileira à Conferência Econômica Preliminar”, em Washington, e à “Conferência Monetária e Econômica Mundial de 1933”, em Londres.
Em 1933 foi eleito deputado à Assembleia Constituinte. E retribuiu a visita que o Príncipe de Gales fizera ao Brasil. Ao retornar, resignou a todos os cargos oficiais e voltou à vida do campo, que sempre preferiu a tudo o mais.

A MORTE DE ASSIS BRASIL
Em agosto de 1938 adoeceu em consequência de uma gripe. O seu coração, de 80 anos, não resistiu. Na noite de 24 de dezembro, no Castelo de Pedras Altas, fechou para sempre os olhos, com a consciência tranquila de haver cumprido o seu dever e trabalhado pela glória da pátria, realizando na vida o que afirmou em um dos seus mais brilhantes manifestos.
Seu corpo descansa no local denominado “Boa Viagem”, cemitério particular localizado nos fundos do castelo. Lá também estão sepultadas à esposa Lídia e as filhas Cecília e Joaquina.
Pedras Altas resiste até hoje. Cercado por parreirais, o castelo, com 44 cômodos, 12 lareiras, torre com ameias e mais de 100 anos de história, construído como uma declaração de amor à mulher amada, agora enfrenta uma dura batalha contra o tempo e o vento.
Há um século, os trens que ligavam as cidades do oeste gaúcho, Bagé, por exemplo, aos portos de Rio Grande e Pelotas paravam em frente ao Castelo de Pedras Altas, mesmo que não houvesse passageiros para subir ou descer.
Isso, para o embarque de pacotes com a produção da Granja de Pedras Altas. Eram queijos, manteiga, doces e frutas secas. E lã de ovelha. E banha de porco.
Frequentemente, saíam dali vagões lotados de animais das raças Devon, Jersey, Karakul, Ideal e puro-sangue inglês, todos vendidos como matrizes, jamais como carne para açougue.
Foi nesse lugar ermo, a 20 km da fronteira com o Uruguai, que o legendário Assis Brasil tentou provar o que havia aprendido em suas visitas a fazendas dos Estados Unidos e da Europa, onde atuou como embaixador do Brasil na virada para o século XX.
Ele quis demonstrar que em uma pequena área bem manejada se poderia obter resultados melhores do que nas tradicionais estâncias gaúchas onde o gado era criado ao Deus-dará, como no tempo dos Jesuítas.
No piso da entrada do jardim do castelo de Pedras Altas, Assis Brasil mandou gravar na pedra a seguinte quadra de sua autoria:
Bem-vindo à mansão que encerra
Dura lida e doce calma.
O arado que educa a terra.
O livro que amanha a alma.
O projeto andou enquanto Assis Brasil viveu, sempre cercado de amigos, clientes, políticos e admiradores. Inimigos? Não os teve. Quando muito arranjou adversários, a quem enfrentava exclusivamente na palavra, sem jamais recorrer às armas, que só usava para se exibir – era excelente atirador.
Metido no meio dos caudilhos, consagrou-se como “chefe civil da revolução”, movida pelos maragatos contra o chefe chimango Antônio Augusto Borges de Medeiros, “o eterno presidente” do Rio Grande do Sul entre 1898 e 1927.
O ex-senador Paulo Brossard, que descreveu Assis Brasil em livro, resumiu-lhe o caráter e o estilo em uma única palavra: “cavaqueador”. Assis era um conversador profissional, dava um boi para entrar em uma polêmica; e uma boiada para não sair dela.

A “CACHAÇA” DE ASSIS BRASIL
A luta pelo poder foi sua “cachaça”, sua glória e sua perdição: ao entrar em paradas políticas que mais de uma vez o levaram ao exílio, ele comprometeu o futuro do seu empreendimento que, além de objetivos rurais, tinha pretensões culturais. Quando morreu, na noite de Natal de 1938, Assis Brasil deixou dívidas que nos anos seguintes exigiram a venda de outras propriedades das quais a família tirava renda para ajudar a sustentar o sonho de autossuficiência da sua granja.
Reduzido a 170 hectares (metade da área original), o projeto seguiu em pé, mas expurgado de fantasias destruídas pelo tempo e o vento. Dos pomares, por exemplo, restaram alguns vestígios, como pereiras gigantescas e o suporte das videiras. Entretanto, em uma confirmação de que o fundador tinha razão quanto às propriedades do solo e do clima para a fruticultura de clima temperado, nos arredores de Pedras Altas começaram a aparecer os vinhedos implantados por empresários da região de Bento Gonçalves, a capital do vinho gaúcho.

O DIÁRIO DE CECÍLIA
O dia-a-dia de Pedras Altas não foi contado apenas por Assis Brasil. Sua filha Cecília, também redigiu um diário. Numa época marcada por sabres ensanguentados, botas embarradas e relinchos de cavalos, a jovem, que devorava as poesias do norte-americano Henry Longfellow em inglês e ouvia sinfonias de Ludwig van Beethoven na solidão do pampa, registrou o cotidiano e as revoluções do início deste século.
No seu diário, tão preciso quanto sensível, Cecília contou a vida no castelo e as conflagrações entre maragatos (libertadores de lenço vermelho no pescoço) e chimangos (republicanos de lenço branco).
Cecília herdou do pai esse hábito, e por mais de uma década (o primeiro diário conservado é de 1916, mas se sabe que ela começou a escrever antes, e o último, de 1932) manteve também diários com a intenção de informar o pai, que devido a sua intensa vida pública constantemente viajava, o que se passava com a família, não apenas em Pedras Altas, mas também nos outros lugares em que moraram.
Conforme Maria Helena Câmara Bastos, “Além da Granja de Pedras Altas, Cecília escreveu seu diário em Pelotas, Rio Grande, Bagé, Rio de Janeiro e em quatro pequenos estabelecimentos rurais – Chácara Bela Vista, Estância Nova, Coxilha Grande e Berachi”.
Cecília e os irmãos eram muito estimulados, em casa, a ler clássicos da literatura e a aprender línguas. Cecília lia fluentemente em inglês e em francês. A encenação de peças de teatro domésticas, pelos irmãos, também era uma atividade bastante apreciada.
Cecília, de brincadeira, escrevia peças para o divertimento da família, como relatou Joaquina, sua irmã, quando falava sobre o teatro na família:
“Ah! Mas era de brincadeira! Nós apresentávamos até óperas. Fazíamos a “Dama das Camélias”, como sempre! “La Traviata”… Era muito engraçado porque a gente improvisava tudo na hora. Escrevi uma peça em inglês. Há poucos dias ainda a vi lá em cima. Cecília também escrevia. Era só para a gente se entreter”.
Cecília, no entanto, nunca se viu como escritora. Seus diários chegaram até nós em 1983, quase 50 anos após sua morte, por iniciativa de Carlos Reverbel, que pediu autorização da família Assis Brasil para selecionar as passagens que considerasse
Interessantes, “em função do próprio conteúdo”.
Primeira filha do segundo casamento de Joaquim Francisco de Assis Brasil, Cecília era diferente da maioria das moças da virada do século. Ela nasceu em Washington, a 26 de maio de 1899, quando Assis Brasil era embaixador nos Estados Unidos.
Morreu aos 35 anos, solteira, fulminada por um raio quando cavalgava nas proximidades do castelo de Pedras Altas. Era uma mulher de olhos morenos arrebatadores, mãos delicadas, feições suaves e um sorriso compreensivo. Cecília amava os cavalos e o seu morreu junto com ela.
Joaquim Francisco de Assis Brasil escreveu a um amigo sobre a
trágica morte da filha dileta, Cecília, vitimada por um raio num dia de tempestade em Pedras Altas:
Antes de tudo, deixe-me agradecer-lhe cordialmente, também em nome de Lídia e nossos filhos, sua demonstração de simpatia com nossa indizível dor. Perdemos uma filha que mereceria o título de “predileta”, se não fosse para nós um dogma a igualdade do afeto dispensado a todos os filhos. E de que nós a perdemos! […].
Nada poderá consolar-nos desta perda. Apenas nos esforçamos por considerar uma felicidade ela haver sido poupada de qualquer sofrimento ou de deficiência física causada por doença, ela que tanto merecia gozar da vida.
Eu comprei o livro “O Diário de Cecília Assis Brasil”, também escrito por Carlos Reverbel. Não vou esmiuçá-lo aqui, como fiz agora, com o diário de seu pai, porque as histórias muitas vezes se repetem.

UMA ATRAÇÃO TURÍSTICA
O Castelo é uma das principais atrações turísticas de Pedras Altas, que inclui uma visita dentro da propriedade. Joaquim Francisco de Assis Brasil deixou para a eternidade um acervo histórico para que o visitante possa se inspirar, e se reportar a uma época em que poucos pensavam em empresa rural, com diversificação de atividades, transformação dos produtos primários em derivados, família trabalhando na atividade do campo com cultura, tecnologia e conforto.
Assis Brasil construiu a Granja para que ela fosse visitada e uma visita valesse uma lição de coisas. Ele dizia que em certas ocasiões vale mais um dia de ver do que um ano de ler. As visitas na propriedade devem ser agendadas. Informações: (53) 6130099, 6130075 e 81131417.
Imponente por fora na solidez dos granitos rosados, com os torrões medievais parecendo vigiar a solidão dos campos, o castelo de Pedras Altas também impressiona por dentro.
Móveis de madeira maciça, lareira fumegando, estátuas, espadas antigas, relógios que gemem pesadamente e retratos amarelecidos revelam segredos da família de Joaquim Francisco de Assis Brasil e mostram fragmentos da história do Rio Grande do Sul. Entrar na fortaleza é como espiar uma época de sonhos, revoluções e ideais.
Logo no hall de entrada do castelo tem um biombo com aplicações em couro, onde constam assinaturas dos famosos da época, como Bento Gonçalves, Santos Dumont, etc.
A mesa, onde os visitantes assinam o livro de visitas, é a mesma em que foi assinado o término da revolução de 1923.
O arquivo de Assis Brasil permanece no castelo de Pedras Altas, residência do destacado rio-grandense, de 1908 a 1939, ano de seu falecimento.
Parte considerável desse arquivo foi microfilmado, encontrando-se no Gabinete de Pesquisas Históricas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O acervo de Pedras Altas é constituído por inúmeros documentos, nem, todos compulsados pelos pesquisadores.

PATRIMÔNIO DO ESTADO
Erguido entre 1909 e 1913, em estilo medieval, a granja e o castelo foram tombados em 2009 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado.
O tombamento dos bens móveis do castelo inclui uma extensa lista de mobiliário, adornos, esculturas, lustres, louças, pratarias, quadros, tapetes, livros e documentos, entre outros objetos que pertenceram ao líder político Joaquim Francisco de Assis Brasil.
Os espaços contêm mobiliário e objetos de época, trazidos por Assis Brasil principalmente de Lisboa, Paris, Washington e Buenos Aires, locais em que viveu com a família quando exercia atividade diplomática.
Os móveis são todos em madeira maciça e vieram de Paris. Na parede ainda sobrevive intacto, o relógio que pertenceu a Bento Gonçalves.
No castelo até os vidros quebrados tem história. Lembram a época da invasão dos republicanos durante a Revolução Farroupilha. Assis Brasil, ao não deixar que os vidros fossem recolocados, disse: “Todas as casas devem ter suas cicatrizes”. A Biblioteca guarda 15 mil livros, entre clássicos em inglês, francês e latim.
O castelo sempre foi habitado pela família. Hoje é sua neta Lídia, quem toma conta do local, com a ajuda das filhas e de uma funcionária.
Há fotografias de autoridades e personalidades que marcaram o mundo, como o retrato de uma brincadeira entre Assis Brasil e Santos Dumont. Exímio atirador, o diplomata acertou uma maçã colocada sobre a cabeça do “pai da aviação”.
Também é destaque uma peça de bronze que era usada para chamar as pessoas à mesa.

NECESSIDADE DE RESTAURAÇÃO
Em 1923 foi assinado no castelo o “Pacto de Pedras Altas”, que pôs fim à Revolução de 1923. A Granja de Pedras Altas, que além do castelo inclui edificações rurais e áreas abertas como jardins e potreiros, já possui tombamento estadual, por razões históricas, desde 1999. A proteção estadual aos bens móveis existentes no castelo é uma complementação ao tombamento da Granja.
Em outubro de 2009, a Federação da Agricultura do Estado (Farsul) decidiu arrecadar recursos para a restauração do prédio, estimada em 5,6 milhões de reais. Entretanto, a documentação necessária para obter a verba não foi apresentada e não houve interessados.
Os familiares que ainda moram na Granja dizem que é difícil manter o patrimônio. Por ser tombado, quem tem a preferência de compra são a prefeitura e os governos estadual e federal.
A degradação ameaça o acervo do castelo, que contém uma grande biblioteca, e limita o número de visitantes. Há um projeto para transformá-lo em um centro cultural no futuro.
Manchas escuras ganharam as paredes, como se quisessem desenhar o mapa de um país inexistente. As infiltrações parecem hemorragias que teimam em não ser estancadas, enquanto que o húmus pespega nos metais que adornam as aberturas.
Os torreões se mantêm firmes, tal como verdadeiras sentinelas templárias, mas parece que o velho centenário perdeu a alma. Falta-lhe a vitalidade dos tempos de glória, a azáfama diária de seus moradores.
O advogado e estudioso de história, Fernando Antônio Freitas Malheiro Filho, disse muito bem: E a memória, nesse país de desmemoriados, agoniza com a agonia do castelo, que em seu silêncio ruge e reclama a restauração, a utilização à altura de seu legado.
Espera que aqueles que têm o poder de fazê-lo, realmente o façam como é de sua obrigação: evitar o sepultamento do que há de mais relevante para um povo, sua identidade.
A RBS TV, de Porto Alegre, apresentou até recentemente uma série de programas intitulados “Fazendas e Estâncias”, em que mostrava através de documentários como eram as propriedades rurais do Rio Grande do Sul.
Em novembro de 2005 foi transmitido um capítulo dedicado à Granja de Pedras Altas, falando de sua história e apresentando depoimentos sobre sua construção e histórias ali passadas.
Participaram do programa, por ordem de apresentação, Antônio Vargas, escritor, Lídia Costa Pereira de Assis Brasil, neta de Assis Brasil, Francisco Pinheiro, peão da década de 1970 e Luiz Francisco Pereira de Assis Brasil, bisneto de Assis Brasil.
(Pesquisa: Nilo Dias)

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