DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “A CONVERSA”.

DR. GERSON

Dr. Gerson Barreto de Oliveira – Médico Nefrologista da Santa Casa de Caridade (CREMERS 18299 – RQE 11776)

Terminou o ano de 1982 e eu concluíra o ensino médio com quinze anos, naquela época podia ser assim, eu entrara com cinco anos no primário. Já há muito decidira fazer vestibular para medicina, e o que não é fácil hoje, também não era fácil naquele então.

Meus pais não eram ricos e já tinham o meu irmão em Porto Alegre, e decidi que era lá que eu tentaria entrar numa universidade.
Um menino, que desconhecia uma cidade como a capital gaúcha. Alguém me deu um conselho que achei ótimo, de conhecer a cidade de ônibus, para saber como me deslocar no futuro. Não havia todo este clima de violência incontrolável, e lá andava eu para nas horas vagas pegar um ônibus, ou quando o dinheiro da mesada permitia, uma lotação.
Outro conselho dado, este pelo meu pai, foi reforçar os laços de amizades que eles tinham com algumas famílias que lá residiam, algumas só por amizade, outras por laços de parentesco.
Não há como negar que quinze anos hoje é uma idade que as informações a que temos acesso permitem que os jovens mais antenados nos deem um show. Mas eu sou de uma época, como muitos, onde não havia computador nem internet. Eu somente estava feliz porque fui atrás do que queria, mas por alguns momentos sentia falta do afago da família.
Minha madrinha, cunhada da minha mãe, tinha quase toda família residente em um prédio do centro, e perto do meu. Lá era um universo de tios e tias, dentre elas, uma se sobressaía.
Era uma senhora altiva, de um carisma contagiante, professora aposentada da velha guarda, com traquejo com os jovens de fazer inveja a qualquer um. Pois bem, ela me procurou e me convocou como “neto honorário“. Isto, além dos festivos almoços de domingo, me valiam um panelão de feijão que semanalmente ela fazia. Posso dizer que era o melhor feijão de Porto Alegre, eu carregava até a minha casa a pé, um reforço e tanto na comida de estudante, ainda mais que o arroz feito no apartamento onde morava era um desastre, o feijão mascarava o unidos venceremos.
Torceu com verdadeiro entusiasmo, e ficou eufórica quando passei na PUC para medicina. Mas no terceiro ano do curso, eu soube que tinham diagnosticado um câncer de fígado nela.
Um dos filhos que era médico, e seria meu professor, como bom filho que era a levou para o melhor hospital que temos no país, na capital paulista.
Já sabendo a carga que esta doença traz, me contaram que, ela não tendo conhecidos em São Paulo, ficara muito só, e sendo extremamente devota ocupava seu tempo rezando à santa a quem venerava. Lembro bem, Nossa Senhora da Conceição, a mesma da igreja do túnel, passando a rodoviária de Porto Alegre.
Aquilo me deixou muito pensativo, como fazer para retribuir um pouco do carinho que recebi quando mais precisava?
Providencialmente uma prima, que era do lado do meu pai, e portanto não a conhecia, foi à São Paulo visitar nossos parentes. Liguei e pedi que fossem visitar a minha amiga enferma, fiquei realmente satisfeito por encontrar uma forma de chegar minha amizade numa cidade tão longe.
Diagnóstico feito, o tratamento orientado no melhor hospital era um só, nada podia ser feito, somente não deixá-la sentir dor.
O câncer é uma doença que começou a ser estudada quando as outras patologias que realmente matavam, durante os milênios de civilização, começaram a serem controladas. Houve a descoberta da cura da tuberculose, os antibióticos surgiram e foram desenvolvidos para tratar desde otites à pneumonias, que devastavam crianças, velhos e adultos. Os cientistas de repente se depararam com aquelas massas sólidas e enigmáticas, que somente a cirurgia não dava conta, e pior, não tinham sido suficientemente estudadas.
Para minha surpresa recente, descobri o livro que agora preenche minhas horas de folga “O Imperador de Todos os Males, uma biografia do câncer “, do badalado oncologista naturalizado americano, Siddhartha Mukkerjee. Nele há o relato que logo após a I Guerra os cientistas se depararam com a aplasia de medula em populações sobreviventes bombardeadas pelo temível gás mostarda. Com a II Guerra houve novamente a correlação, e se abria a porta para o tratamento chamado quimioterapia.
As guerras terríveis e devastadoras deram um fruto à humanidade. Existia uma chave para o tratamento das leucemias, e depois disso a quimioterapia se popularizou. A partir daí tudo foi muito rápido, com os milhões que a filantropia americana conseguiu para pesquisas. Sim, porque lá os ricos bem ricos se sentem em paz em fazer caridade com o dinheiro amealhado.
Mas com todos os avanços, a patologia câncer vêm dando trabalho e muitos ficam pelo caminho. Como tratar isso é difícil, como ouvir as verdades e o inventário de vida do doente é para muitos familiares doloroso, alguns surpreendem.
De volta à Porto Alegre minha amiga demonstrou com quantos quilates se faz uma mulher forte, e me chamou em seu apartamento. Confesso que nunca imaginei o que iria ouvir.
“Obrigada pela tua preocupação, afinal sei que foste tu que fizeste tua prima e uma amiga atravessarem São Paulo para me fazer companhia”. “Sabe, lá andei conversando muito com minha santa e pedi um sinal à ela“. “Caso eu merecesse, que ela me mandasse uma resposta às minhas preces, que fosse na forma de uma flor, se eu fosse morrer logo sem sofrimento, que recebesse rosas vermelhas, se a doença se prolongasse que as flores fossem amarelas, e se a cura desejada viesse, então que eu recebesse flores brancas. “ Nesta altura da conversa eu já estava num estágio entre o ceticismo e o pânico.
Mas a conversa fluía e eu não sabia o que retrucar. Não queria acreditar que minha prima tivesse tido a ideia de levar flores, eu nada sabia.
Sim, ela levara flores, e eram amarelas. “ A amiga que acompanhava tua prima também carregava flores, eram brancas, eu ainda perguntei para quem eram, mas ela respondeu que o objetivo seria para pagar uma promessa em uma igreja próxima, fiz força com o pensamento para que ela me desse pelo menos uma, mas isso não aconteceu”.
A santa, no entender da doente era clara na mensagem, haveria um longo sofrimento sim. “ Antes que o médico abrisse a boca eu já sabia o que estava acontecendo “ me disse então. E ela se manteve forte até o final, fazendo jus a impressão que transparecia a todos, era uma grande dama.
Conto agora este caso que parece muitas vezes inverossímil, provavelmente porque só fui entender há bem pouco o que presenciei, quando li num escrito do papa atual falando sobre “as sutilezas da fé”.
Tudo o que a medicina no final da década de 80 tinha de melhor foi oferecido, mas o que deu mais conforto e alento a uma paciente em fase avançada de câncer foi sua fé, sua religião. E ela se comportou com uma dignidade que já tendo vinte e seis anos de formado, pouco presenciei.
O menino de Bagé já não existia, porque foi aprendendo que em medicina há eventos curativos, mas há o trágico e desafiador destino que muitas vezes nos encolhe para ser o que realmente somos, humanos.

 

Anúncios

  • OUÇA A RÁDIO CULTURA