NERO, O IMPERADOR DO BIANCHETTI.

Dr. Gerson Barreto de Oliveira Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel CREMERS 18299 - RQE 11776

Dr. Gerson Barreto de Oliveira
Médico Nefrologista da Santa Casa de São Gabriel
CREMERS 18299 – RQE 11776

O “seu” Nero era o mais antigo garçon do Restaurante do meu pai, o Esquina Bianchetti. As bravatas eram inúmeras, e ele, para pegar um cliente importante, era um astuto só.
A rotina de um restaurante até hoje me faz sentir em casa, o cheiro de comida, o barulho da louça sendo tirada, dos copos, das garrafas, tudo isso me lembra a infância, e se tem máquina de café, então é pura saudade.
Cada cidade tem o seu restaurante popular, com uma comida honesta e saborosa. Em Pelotas, o Cruz de Malta; em Santa Maria, o Augusto; em Porto Alegre, o Gambrinus, e por aí vai. Em Bagé, especialmente para mim, o Bianchetti da minha infância.
As peripécias do Nero foram muitas. Quando Nelson Marchezan fez uma estrondosa votação para deputado, lá pela década de 70, a alegria do nosso garçon foi tanta ao ver o seu deputado adentrar ao salão do Bianchetti, que ele pulou para cima do homem. Marchezan era um homem alto, fortão, e Nero era pequeno e com uma saliente barriga. Pois não é que o deputado o pega no colo, em pleno salão, e justo na hora do recreio do turno da noite do Colégio Estadual! A casa veio abaixo, já que por ser também uma lancheria o prédio lotava neste momento.
Juca Chaves, com sua voz satírica de protesto, humor corrosivo nas suas modinhas, esculachava com a repressão aos costumes, na época da ditadura militar, e por tabela criticava com mordacidade o governo. E ele entrou no salão do Bianchetti no momento do clímax noturno, o recreio do Estadual, e quem o serviu ? Sim, ele, o Nero. Juca exigia beijinhos de todas as meninas que iam pedir autógrafo, pequeno e narigudo, um figuraça.
Outro grande momento do Nero foi a chegada de um general de alto escalão, que vinha na cidade visitar o presidente Médici, já retirado da vida pública em sua propriedade rural em Bagé. Primeiro entraram os seguranças para planejar a medidas de proteção da distinta figura. Minha mãe foi para a cozinha comandar as cozinheiras para que o ponto da massa saísse perfeito, uma especialidade da casa. As toalhas haviam sido trocadas, o pão havia sido previamente aquecido para, junto com as cremeirinhas com margarina, irem à mesa. Claro que o Nero já tinha dado um chega para lá nos colegas e, atarantado, corria de um lado para o outro para servir o casal – o general e a esposa. Esta, não vendo os copos para a bebida, pede ao nosso herói que traga duas taças. Para espanto dos meus pais, que a tudo assistiam, ele tira os copos do bolso e os coloca à mesa, com sorriso de satisfação de sua própria eficiência. Minha mãe desapareceu! Restou ao meu pai passar a mão nos tais copos, e trocar por outros.
Hoje se houve muito: “Você é o que você come”. Sim, é importante observar a dieta, exercícios físicos e moderação no álcool, mas quem resiste à um prato de massa, ou um filé a caneco?
E aproveito este espaço para um pouco de nostalgia alimentar, a receita do fabuloso “Filé a caneco do Bianchetti” : pegue um naco de filé não batido, coloque numa chapa quente, por cima coloque uma lata vazia de compota, com furos na parte superior, por onde vai se pingando manteiga. Nada superará a maciez da carne, sirva com algum acompanhamento e respire fundo, pois é uma boa comida que nos faz sentir uma sensação de felicidade, fugaz como todas as coisas boas da vida, mesmo assim felicidade.

Anúncios

1 Comentário

  1. Que bonita a lembrança do seu Nero ! Figura ímpar ! Abraço meu irmão . DrC Carlos Augusto B. de Oliveira CRM 18186


Sorry, the comment form is closed at this time.

Comments RSS

  • Veja A Notícia OnLine no FACEBOOK