DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “FILHOS, COMO SABÊ-LOS?”

Dr. Gerson Barreto de Oliveira

Dr. Gerson Barreto de Oliveira

Saborear um bom poeta é para poucos, tem que saber declamar para poder sorver o real sentido da palavra escrita. Eu infelizmente posso ter memória de elefante para muita coisa, mas não sei recitar uma poesia, pela simples incapacidade de decorar algo, cantar então nem pensar. Minha mulher sabe cantar, ouvido musical de primeira, uma característica da família dela. No meu caso, “ niet “. Ainda bem que os nossos filhos puxaram essa sua característica, o que minha mãe sempre chamou de dom musical. Não tenho dom musical nem para cantar o hino nacional, me perdoem, só com acompanhamento até a metade, depois não avança.
Admiro o Dr. Heraldo Amann, sabe declamar como poucos, alguém já o ouviu declamar o poema “ Em Paz “ , do poeta mexicano Amado Nervo ? Eu já, muitos dos seus amigos também, mas vê-lo declamar para a sua mãe nos 100 anos dela foi perfeito. Era um filho homenageando sua mãe, lindo e emocionante de ver.
Outro poeta sobre quem eu e ele já debatemos foi Vinicius, este é o que chamamos atualmente, de “ o cara “. Rico, bem nascido, ficou entediado com a vida de luxos de embaixador e jogou tudo para o alto. O “ Poetinha “ viveu intensamente seus incontáveis amores, e criou junto a Tom Jobim o que de melhor já se fez neste nosso Brasil em termos musicais, a Bossa Nova, e teve filhos, muitos.
Um homem assim só podia ser de uma sensibilidade extrema, e como ninguém captar o sentimento de pai. Como o pai que se pergunta entre aflito e interrogativo:

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?

Saber da intensa delicia que é pegar uma criança no colo, vê-la progredir e crescer, e um dia admirar o seu vôo para fora do ninho, neste mundo mutante, é algo único.
Na vida médica pode-se observar de perto muita coisa, amor aos pais e os cuidados zelosos com quem nos cuidou muito bem na infância, ou o extremo oposto, o desamor total e absoluto, o abandono.
Vez por outra somos surpreendidos pela perplexidade das pessoas. No hospital uma jovem funcionária estarrecida com um paciente que a família se ausentou por completo, fez o seguinte comentário desolado parecendo falar para si mesma, com tristeza disse “ Como evitar que isso aconteça conosco no futuro ! ”
Lembrei do meu avô Idelmar Barreto falar do livro texto que era empregado na época que ele era estudante, chamava-se “ Seleta “. Nada mais eram que copilações de textos mais ou menos edificantes para a formação moral da juventude, foi introduzido com o advento da República para preencher o espaço, então praticamente dominado pelas escolas dirigidas por religiosos, e assim bem formar os jovens no nascente século XX. Isso acontecia do Oiapoque ao Chuí, passando por Bagé.
Li alguns destes textos nas tardes chuvosas e modorrentas da campanha, enquanto passava minhas férias de verão, não tendo mais nada a vista para ler, pegava os livros que minha avó guardava numa gaveta. Meu avô já tinha partido para sempre, mas o exemplar da Seleta continuava entre os guardados da família.
Uma crônica particularmente me veio na cabeça naquele momento de questionamento da funcionária, que por casualidade acabava de ser mãe. Tal como o pai que procura entender o universo do filho no poema de Vinicius, ela se indagava nesses instantes que ficamos atônitos com o porvir.
O texto discorria sobre o filho de um pai velho que manda o neto levar um cobertor ao asilo para o avô. O menino rasga o cobertor ao meio, e o pai indaga o porquê daquilo, ao que é retrucado. “ A outra metade fica guardada para ti”.
Eu disse para a jovem que a melhor forma de se prevenir contra tudo o que lhe horrorizava era o exemplo, a forma como ela enquanto filha trataria seus pais quando chegasse a velhice deles, seria a melhor lição para seu filho a tratar no futuro. Neste mundo trágico, cada vez mais escasso de tudo, temos é que garantir que pelo menos em casa os bons exemplos não sejam esquecidos como livros velhos.