OPINIÃO – “SAÚDE… É PARA POUCOS NO BRASIL”.

Imagina essa cena: Pai e mãe levam o filho de quatro meses para o hospital e, por causa do estado de saúde do bebê, o médico determina a internação da criança. O casal deixa a unidade hospitalar vendo o filho aos prantos, fazendo sinais com os braços, como quem diz “não me deixem aqui”. Juntos com ele, outras sete crianças, todas igualmente chorando. Para cuidar de todas, apenas uma auxiliar de enfermagem.

Os pais deixam o hospital tão “doentes” quanto o filho. É terrível para um pai, ou mãe, ver o filho chorar e não poder fazer nada. Dá uma sensação de impotência.

Estamos falando de um caso que aconteceu há 24 anos na cidade de Viamão.  Passados esse tempo, o hospital em questão pouco mudou. Hoje, tem mais profissionais na unidade pediátrica. Mas se analisarmos bem, muito pouco evoluiu, talvez fruto da falta de visão de seus administradores.

Em São Gabriel, quase que na mesma época, o Hospital de Santa Casa de Caridade enfrentava praticamente os mesmos problemas. Na verdade, eu acho que aqui a situação era ainda pior. Lembro que fiquei, entre idas e vindas, quase cinco anos internado, passando, inclusive por um longo período na UTI.

A enfermaria masculina, composta por aglomerado de camas e de pessoas que se revezavam nos cuidados com os pacientes, não era nem 5% do que é hoje o mesmo setor. Em 24 anos, o Hospital mudou de cara, mas, acima de tudo, mudou de perfil.

De salões “comunitários”, com aparência triste e desoladora, o Hospital ganhou visual moderno, salas claras e alegres, sem, é claro, perder a aspecto de casa de saúde.

Nos últimos dias, acompanhando o atendimento a minha mãe, eu pude ver o quanto, às vezes, somos cruéis nas nossas críticas. E não me entendam mal. Não estou aqui para defender a administração da Santa Casa. Eu concordo com as pessoas que “cobram” atendimento imediato quando chegam desesperados no Pronto Atendimento. Nestes momentos, deixamos de ver a razão e passamos a agir com paixão, medo e incertezas. O coração fala mais alto.

Mas basta percorrermos alguns quilômetros para vermos o quanto a saúde de São Gabriel evoluiu nas últimas décadas e o quanto o hospital da cidade é “diferente” da maioria dos hospitais do nosso Estado… do Brasil.

Em Porto Alegre, é normal ver pessoas implorarem por atendimento e pacientes serem atendidos nos corredores. Alguns dividem locais de acesso público como se fossem salas de pronto atendimento.

São Gabriel está longe desta realidade triste que assola o nosso país.  Mas, se você me perguntar, se precisa melhorar? É claro que sim. Não podemos dizer que está tudo uma maravilha. Existem falhas, problemas no atendimento, profissionais que medicam, mas esquecem de que o melhor remédio é ainda o amor (a forma de tratar o paciente pode ser mais eficaz que um remédio)… E, mesmo assim, ainda vivemos numa cidade onde o acesso ao sistema público de saúde é ainda um bem ao nosso alcance. Não queira sair de São Gabriel. Pois, sem dinheiro, fora daqui, é contar com a sorte. E com saúde não se brinca.

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