DR. GERSON BARRETO DE OLIVEIRA: “POR ACASO A SENHORA TEM GAIOLAS DE PÁSSAROS EM CASA?”

Dr. Gerson Barreto de Oliveira

Dr. Gerson Barreto de Oliveira

Todo mundo sabe que há pessoas que numa profissão se destacam mais que a média, tomemos a profissão de médico como exemplo, há os que a dignificam, que são muitos, e há os outros.
Aqui em São Gabriel os anos passam, e dois nomes são emblemáticos na história da medicina. Para os mais antigos reina o do Dr. Dirceu, desprendido, usava seu conhecimento médico em prol do próximo. Dinheiro ele tinha, não precisava andar atrás, e nada cobrava do seu trabalho que já estava à frente da sua época.
Para a geração mais recente há o Dr. Bráulio, bem, este não só brilha, como dá para escrever bem mais que esta curta crônica, virou mito, não só pelo excepcional saber médico, como pela personalidade inigualável, que ainda hoje nos diverte em diversas ocasiões quando é lembrado.
Para nós, seus amigos, o Tio Bráulio deixou muitas saudades, e me emociono ao lembrar que foi a mim que ele recorreu para que o tratasse nos últimos dias. Sua irrefreável vivacidade estava embutida numa dedicação pouco vista ao doente. Ainda hoje seus pacientes falam como se ele estivesse vivo, e não foram poucos que me confessaram não terem procurado um médico por anos depois da sua partida.
Me formei junto a um hospital que tinha todos os recursos, a PUC ainda é para mim uma grande referência. A residência médica foi num hospital menor, a Beneficência Portuguesa de Pelotas, mais adaptada à realidade que vivemos.
Lá chegando, ouvia os alunos que faziam internato falar com reverência ao saber enciclopédico de um professor, e do trato diferenciado que ele dava aos doentes.
Bem, ele é isso e mais um pouco, humano e prestativo, tem algo que não é só o conhecimento de ler um livro médico, é saber como empregar. Um médico tem que saber ouvir. O paciente sempre vai contar o que lhe ocorre. Se o médico souber as reações das diferentes moléstias é só investigar através de exames, prescrever os remédios corretos, e voilá, temos a cura. Só que o professor não precisava de exames, esses ele pedia por condescendência, o homem sabe escutar como poucos, e com pequenas perguntas, emitidas em pausas de reflexão, praticamente faz o diagnóstico à beira do leito.
Na primeira semana de estágio apareceu o que chamamos no jargão médico “bruxaria”. Era um homem jovem, rico, sem doença prévia, de uma cidade vizinha à Pelotas, que começou a passar mal e perder rapidamente a função renal, com febre, confusão mental e mal-estar. Lá foram chamar o nosso professor, este ouviu a estória e perguntou se o paciente tinha tido contato com ratos. A esposa espantada, inicialmente disse não com veemência, pareceu hesitar e, pensando melhor, comentou que eles criavam cavalos de raça e estes começaram a adoecer inexplicavelmente. O marido tinha se mudado para as baias para supervisionar o tratamento dos preciosos animais. Ao acabar o interrogatório fez um exame físico, e para respaldar o que já sabia, já se afastando do leito, chegando aos pés da cama apertou a panturrilha do paciente. Este deu um salto mortal e ficou em pé ao lado da cama, com cara de dor. O professor passou por nós e disse somente: “leptospirose”.
Corremos para o livro de clínica, e lá estava tudo o que o médico enfatizara na entrevista com o doente. Era a temida doença transmitida pela urina de ratos, e eu, recém chegado na cidade, desconhecia que era uma doença muito comum nos verões chuvosos de Pelotas.
De outra feita o professor foi chamado por um colega médico que estava tratando uma mulher com pneumonia. Este colega disse que estava “sem tempo, que era para dar uma olhadinha”. Inabalável, o professor pegou sua pastinha e o acompanhamos. Era mulher de meia idade, o Rx de tórax mostrava uma pneumonia, mas por mais medicação que se usasse não melhorava. Ele ouviu toda a evolução que lhe foi relatada e de repente disparou: “Por acaso a senhora tem gaiolas de pássaros em casa”?
Sim, ela tinha, ao olhar com olhos de estudante parecendo o seriado “ Dr. House “, ali naquele dia vimos o que anos de experiência e dedicação fazem. A paciente tinha uma pneumonia causada por Chlamydia psittaci, transmitida pelo contato com pássaros. E nos socorrendo do Harrison, melhor livro de clínica médica, abrimos um dos pesados volumes, tudo na era pré Google, e nos deparamos com o quadro clínico exato que a paciente apresentava. O professor não lia, ele parecia ter “engolido” o Harrison, pois era perfeito o diagnóstico e sua conduta.
Por isso hoje, meio com saudade lá daquela época de descobertas, dedico esta crônica ao Dr. Flávio Sieburger Costa, que continua a atuar em Pelotas, e ainda faz com que encaremos a profissão de médico com todas as suas sutilezas, honrando a nobre arte de curar.

1 Comentário

  1. Excelente reflexão: realmente hoje, precisamos de mais médicos que dignificam do que os outros…..


Sorry, the comment form is closed at this time.

Comments RSS